sexta-feira, 1 de maio de 2009

CAPÍTULO XIII A PRIMEIRA RENDIÇÃO

Chegaria o fim do ano e Vitor há algum tempo não bebia, pois o alcoolismo tem suas oscilações, e mesmo tendo o vício, uma pessoa pode parar de beber um tempo, mas no seu caso como no de muitos, isto não o faria parar definitivamente, pois se um amigo o convidasse para beber, Vitor descontava todo o tempo em que não havia bebido. A sua impotência diante da bebida era total. Só ele não queria aceitar.
O Reveillon, que seria festejado no SOLAR CASTELLI, era pouco apreciado por Soraya, pois Conceição há alguns meses demonstrava um cansaço, mal estar, que seria diagnosticado como um câncer já adiantado no esôfago.
Todos estariam se preparando para a festa, com exceção de Marisa e Tonha e Angelina, que preferiam passar na igreja.
Helena havia ido mais cedo com as crianças. Seus pais, não estariam presentes, pois foram passar a data em Brasília.
Vitor, não apareceria logo, o que deixou a esposa e os demais apreensivos. Já era a gota d´água. Helena definitivamente estava saturada. Depois de anos suportando o comportamento inconstante de Vitor, ela resolveria explodir. Pensou: “Ele com certeza está demorando porque foi beber. Agora, vou tirar a minha forra, quem vai beber sou eu”. Num ímpeto de revolta, Helena que sempre fora uma mulher controlada, resolveria fazer uma loucura.
Ao vê-la sozinha, um homem que se interessara por ela, resolve cortejá-la:
- Está sozinha? – Helena, já um pouco tomada pela bebida, faz um gracejo olhando para os lados.
- É... Não parece ter ninguém, nenhum fantasma, eu acho. Pode sentar.
- Você é muito engraçada e...muito bonita também.
- Obrigada...Você também é um gato.
Ao longe, Soraya e Heloísa não acreditam no que estão vendo.
- Soraya, você está vendo o que eu estou vendo?
- Helô...Não dá pra acreditar.
- Que hora pro Vitor sumir. – lamentou Heloísa.
- Ai, Helô, já está difícil suportar esta festa por causa da doença da minha mãe, no mesmo dia, o Vitor some.
- Olha Soraya, quero muito bem ao meu cunhado, mas se ele aprontar com a minha irmã, há de se ver comigo. Eu o jogo naquela piscina!
O clima vai esquentando entre Helena e o homem que além de bonito era sedutor. Aos seus 32 anos, ela cansara-se de fazer o papel de esposa dedicada, que tudo suporta, que não faz uma loucura por causa dos filhos. “Chega!” – dizia para si própria. – “Vou viver uma aventura, vou dar uma lição naquele bêbado!”
Os dois começam a dançar e os presentes percebem os olhares, os sorrisos. Alguns nem sabiam de quem se tratavam, outros, estarrecidos, se perguntavam sobre o que teria havido com aquela mulher tão séria, tão compenetrada, incapaz de se expor tanto.
Com sabedoria, Heloísa, Soraya e Lúcia, afastam as crianças de perto da mãe, antes que pudessem vê-la dançando com o homem.
Inesperadamente, Vitor aparece, bêbado.
- Vitor?! – espanta-se Paulo.
- Que foi? – pergunta Vitor irritado
- Você só aparece agora, cara? Ainda tem coragem de vir de porre? Toma jeito!
- Paulo, “não enche o saco”, tá?
- “Peraí”, cara, calma! Aonde você vai?
- Uai! Não é festa? Deixa eu curtir! Vou dançar!
- Vitor! Espera!
- Sai pra lá, Paulo! Parece carrapato!
- Vitor! – Vitor vai até o salão onde todos dançam e embora Paulo tivesse tentado avisar, o irmão encontra Helena dançando abraçada com o sujeito. Encontra uma mulher sozinha que tira para dançar, porém, esta não aceita, achando-o um chato. Irado, vai até Helena e o homem e grita:
- Larga minha mulher, cara!
- Não enche, quem mandou sumir?! - Responde Helena. Vitor, no auge de sua cólera, dá um “direto” no rosto do homem que reage. Está armada a confusão. Com a briga, a festa praticamente termina. Genaro e Paulo contêm o irmão e o homem e os convidados, atônitos assistem a tudo, procurando disfarçar. Muitos se retiram discretamente.
Genaro fica irado, pois o irmão havia estragado sua festa, causando uma péssima impressão inclusive a muitos empresários conceituados e muitas pessoas importantes de cerimônia, convidadas pela primeira vez para o evento e que provavelmente não voltariam. Recrimina ferozmente o irmão:
- Você me envergonhou, Vitor! Me humilhou! Quando vocês quiserem “lavar suas roupas sujas”, escolham outro lugar!
- Calma amor. – apazigua Soraya.
- Você também é um tonto, Paulo! – recrimina Heloísa – se fosse mais prático, teria conseguido evitar tudo isto!
- Ele saiu correndo, eu o perdi de vista! – justifica Paulo.

- Lelê, você me traiu! – grita Vitor.
- Já o fiz tarde! – responde Helena levantando-se – se pensa que eu vou ficar aqui, está enganado! – Helena vai saindo e Vitor tenta ir atrás.
- Volta aqui!
- Vitor! – Paulo tenta segurá-lo e ele desvencilha-se, correndo atrás de Helena.
- Volta, Lelê!
- Me deixa em paz!
- Volta! – Helena continua a correr e Vitor continua correndo atrás. De repente, Helena tropeça e cai.
- Lelê, não me deixe! – Vitor chora e segura Helena caída no chão ficando em cima dela, que grita:
- Me solta, eu te odeio!
- Eu te amo!
- Seu fracassado, eu não quero mais você, aquele cara é meu amante, já saí com ele antes! – Helena mente querendo vingar-se, seu desejo é de humilhar Vitor.
- Ordinária! – Vitor esbofeteia Helena que devolve com mais força.
- Miserável! Você merece ficar só pra vida inteira! Você merece ficar na sarjeta que é o lugar de “paus d’água” como você! – Helena fica com tanto ódio que cospe no rosto de Vitor.
Os irmãos e cunhadas, vão até Vitor, tentando ajudar. Helena deixa-o com Genaro e Paulo e Heloísa e as outras, amparam-na.
- Vitor, o que você fez... – lamenta Sérgio.
- Acabou, mano, acabou...
- Meu irmão, se eu pudesse ajudá-lo. – compadecia-se Sérgio.
- Você está sendo muito condescendente, Sérgio. Este cara, precisa de uma “dura!” – repreende Genaro.
- Não é hora disto. – argumenta Sérgio.
- Esta é boa! E o que ele fez aqui? A vergonha que nos fez passar?
- Vamos entrar, gente. O Vitor precisa de um banho frio. – aconselha Paulo.
- O que ele precisa é de vergonha na cara! – sintetiza Genaro.
Genaro chegara ao seu limite. A tolerância nunca fora uma de suas qualidades e diante da atitude do irmão, sentia-se no direito de repreendê-lo, de até arrasá-lo para que sentisse o que havia feito. Estava decidido a não convidar mais Vitor para nada. Ele havia atrapalhado seus negócios. Embora um homem ainda romântico, Genaro tornava-se prático em relação ao trabalho e frio com situações como a do irmão. Nada entendia sobre o emocional.
No dia seguinte, Vitor acorda tarde e encontra Heloísa, que fala duramente com ele.
- Vitor, eu estou muito decepcionada. Conheço você desde menino, nunca pensei que chegasse ao ponto que chegou. Minha irmã quer separar-se de você. Eu a apoio. Apesar de tudo, lamento por você e pelos seus filhos, mas eu faria o mesmo. Felizmente eles não viram a cena que se deu aqui.
- Cadê a Lelê?
- Já foi pra casa. Vai mandar suas coisas pra casa da Marisa.
Vitor não tem mais moral para argumentar nada. Sente sua vida acabada. Vai para a casa de Marisa e isola-se, numa profunda depressão.
A mãe não sabe o que fazer. Somente ora ao lado de Tonha, que também sofre muito.
Vitor passa a beber cada vez mais. Seu desejo é de se destruir.
Olavo e Otávio dar-lhe-iam um tempo para reestruturar sua vida, continuando a pagar seu salário.
Vitor se isolara. Não queria ver ninguém.
Sua prima Angelina sabendo do ocorrido vai visitá-lo, procurando prestar-lhe solidariedade:
- Primo, como você está?
- Como eu poderia ir?
- Eu sei que está sofrendo. Estou muito triste por saber que você e Helena se separaram.
- Ninguém pode fazer nada, a não ser lamentar, mesmo.
- Vitor, você não gostaria de ir comigo à minha igreja?
- Ah, Angelina, “dá um tempo!” você acha o que? Que eu vou lá e um milagre vai acontecer na minha vida?
- Se você abrir seu coração pra Jesus, quem sabe?
- Eu só acredito que Ele faz milagre, depois de ver acontecer algo que não acredito acontecer.
- O que?
- Que a Lelê volte pra mim.
- De minha parte, vou orar por isto.
- Não perca seu tempo. Ela não quer mais ver a minha cara.
- Tenha certeza de que Este Deus que eu creio, não quer ver você infeliz. Primo, eu já tenho que ir. Quero que saiba que você pra mim é mais que um primo, um irmão. Eu desejo tudo o que houver de maravilhoso pra você e vou orar. Se no caso você só vai crer neste Deus se ela voltar, Ele pode fazer isto, pra você crer n’Ele. Ele nunca faz menos do que promete, mas freqüentemente, mais do que prometeu.
Depois que Angelina sai, Vitor fica divagando. Não crê no que disse, mas sente-se consolado com a visita da prima.
Numa madrugada, o telefone toca na casa de Marisa:
- Alô? - esta atende apavorada. – Como? Sim, sou eu. Ele é meu filho. Eu já vou.

Os moradores de um prédio próximo a um bar onde Vitor fazia arruaça com um grupo se irritaram e fizeram queixa à polícia, que prendera todos. Marisa pediu ajuda a Olavo e Otávio e pagou a fiança pelo filho.
Sentindo-se arrasado, Vitor lamenta-se:
- Eu sou um infeliz, sem mulher, sem os filhos, eles não querem mais saber de mim. A Lelê não tem nem me deixado vê-los.
- Vitor, ela telefona para mim, dando notícias das crianças. – consola-o Marisa. - Tem razões de não querer que você vá lá. Vocês acabaram de se separar depois de uma briga horrível! Dê um tempo pra ela, meu filho. Você também precisa de um tempo, não está em condições de conversar. Veja o seu estado, pense no que fez. Você nunca chegou ao extremo que chegou hoje.
Achando Marisa muito condescendente, Olavo argumenta:
- Dona Marisa, eu peço licença para falar em particular com o Vitor. – Marisa concorda e os dois ficam sós.
- Vitor, o que é que você está pensando? Que vou ficar aqui me debulhando em lágrimas dizendo: “Coitadinho, como está sofrendo!” Cara, toma jeito. Você tem como mudar tudo isto, basta querer, basta ter um pouco de amor próprio, vergonha na cara. Vá aos Alcoólatras Anônimos e encare a realidade. Faça o mesmo que qualquer pessoa que se admite com fraquezas faz. Olhe-se no espelho e diga para si próprio: “Eu sou um alcoólatra, eu preciso e quero ajuda”. Você ainda não o fez, porque é orgulhoso!
- Não enche, Olavo! Não me resta nada na vida a não ser a bebida. Ela vai ser minha companheira agora. – responde Vitor com ar de derrota.
- Se quiser continuar assim, lamento. Conheço pessoas - que como eu - odeiam que se tenha pena delas, você adora a pena, adora sentir autopiedade, ser fraco. Continue fazendo isto consigo próprio, pra ver até onde você vai chegar. – quase saindo, Olavo recua e dá um aviso a Vitor:
- Quero avisar que não o aceito no escritório até que tenha ido a uma reunião dos Alcoólatras Anônimos. Pode dizer que estou jogando pesado, estou mesmo. Nem eu, nem meu irmão lhe dirigiremos a palavra se você não mudar de atitude.
Vitor continuava mergulhado em seu orgulho. “Quem são eles para determinar o que devo ou não fazer? Vou continuar bebendo, o quanto quiser e quando quiser!”.
Na primeira oportunidade, logo passada a ressaca, lá estava Vitor, três dias depois, bebendo num bar.

- Um brinde à vida! Enquanto ela existir. – bradava erguendo o copo numa falsa felicidade.
A angústia era visível para os que o rodeavam nas outras mesas.
- Este cara já esteve aqui antes. – comentava um antigo freqüentador.
- Agora ele é “sócio de carteirinha”. – respondeu o dono do bar – a mulher o largou e ele tem feito ponto. Foi só curar a última ressaca pra reaparecer.
As músicas que o povo cantava no bar pareciam ser para Vitor: “Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram, que lhe encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar”. Logo a seguir, uma mais contundente: “Mas se algum dia talvez a saudade apertar, não se perturbe, afogue a saudade nos copos de um bar”.
- Assim já é demais! – irritou-se Vitor – “Tão curtindo com a minha cara!”
- Ih ... “Pega leve”, cara...a gente nem te conhece! – protestou um entre os presentes que cantavam.
- Eu vou é pra outro bar!
Vitor atravessa a rua e sem olhar que vem um carro, é atropelado. Embora não tenha tido grandes conseqüências o atropelamento, o homem que dirigia saiu do carro e o socorreu, levando-o para o Miguel Couto. Vitor ficara semi-inconsciente. Quando volta a si, vê o homem e Marisa diante dele.
- Meu filho...que susto você me deu.
- Desculpe, mamãe...eu não sei o que dizer.
- A culpa não foi minha, amigo. – justifica-se o homem. – Você devia ter mais cuidado.
- Eu...peço desculpas a você também, não tinha obrigação de me socorrer.
- Obrigação moral eu tenho com todo o ser humano e você é um. Ninguém é melhor do que ninguém. Somos todos iguais.
- Pois eu me sinto o pior dos seres humanos. – lamenta-se Vitor.
- O seu problema é a autopiedade. – ao ouvir estas palavras, Vitor fica impactado. Como um homem que acabou de conhecê-lo poderia dizer-lhe isto?
- Você deve me achar um intrometido, mas eu vou lhe passar um pouco da minha experiência; eu também já bebi muito, cheguei a dormir na rua. Sentia-me exatamente como está se sentindo agora. Quando eu pensava que estava tudo acabado, que só restava esperar a morte, fui levado da rua por pessoas que nunca havia visto para uma reunião dos Alcoólatras Anônimos. Você já ouviu falar de lá?
- Já estive lá.
- Não voltou?
- Não.
- Por quê?
- Eu... não me senti à vontade.
- Você não se sentiu à vontade, naturalmente por não querer admitir que é alcoólatra. Admita, então se sentirá à vontade. Não se ofenda pelo que eu disse. O que está acontecendo com você agora, já aconteceu comigo. Como eu disse, somos todos iguais. Lá, outras pessoas que passaram por problemas iguais ou até

piores poderão ajudá-lo. Se você permitir, é claro. O primeiro passo, é aceitar sua impotência perante o álcool.
- Eu vou pensar.
- Tome aqui este cartão. É do grupo que eu freqüento.
- Qual é o seu nome?
- Pedro. Será um prazer vê-lo na reunião. Até breve.
- Obrigada por este anjo, Senhor. – murmurou Marisa.
Aquele homem, que Marisa considerava enviado por Deus, conseguira mexer com o interior de Vitor. Depois daquela situação, em que Este mesmo Deus lhe provera um livramento - como em tantas outras – ele passaria a ver as coisas com mais clareza. Mesmo abatido, em profunda depressão, finalmente iria a uma reunião, desta vez com mais consciência e objetivo de obter ajuda. É muito bem recebido principalmente por Pedro:
- Seja muito bem vindo, amigo. – saudou-o apertando sua mão e abraçando-o.
Ao chegar sua vez de falar, Vitor sente que pode confiar nas pessoas presentes. Vence o orgulho que tivera até então e inicia:
- Meu nome é Vitor Silva Castelli. Tenho 34 anos. Já estive em outras reuniões, mas só como freqüentador, nunca quis assumir o que estou pronto para fazer agora: que sou um alcoólatra. Estou passando por um momento muito difícil. Minha mulher separou-se de mim, tivemos uma briga como nunca tivemos em 12 anos de casados. Foi um vexame, pois foi no Reveillon na casa de meus irmãos. Eu sinto que vi na bebida o meu refúgio. Uma vontade de esquecer coisas que me atormentaram por toda a vida. Hoje estou começando a entender que se eu beber tentando matar alguma lembrança, ela será como um corpo que morre afogado; vai ao fundo e depois bóia, reaparece na minha frente e a lembrança fica, com o mesmo impacto de presenciar a imagem que não se apaga. Eu...Preciso de ajuda, por favor. – todos aplaudem como é o costume nas reuniões e Vitor sente-se apoiado. Faz amizades novas e entende que há problemáticas muito maiores que a sua. Sai do seu egocentrismo e começa entender o que se passara com ele durante tantos anos.
Desde a primeira reunião e daí por diante, não beberia mais um gole sequer. Logo depois de assistir a reunião, Vitor traz a ficha de ingressante.
Volta ao escritório, para a surpresa e Otávio e Olavo, que percebem no amigo uma melhora que os surpreende.
- Vitor... como você está bem! – admirou Otávio – você foi aos Alcoólatras Anônimos? – deduziu rapidamente.
- Não faça suspense, amigo. – inquietou-se Olavo.
- Meus caros podem escrever nas agendas de vocês, assim como vou escrever na minha: dia 10 de janeiro de 1986, o dia em que Vitor parou de beber. Eu até gostaria de dizer primeiramente à minha mãe, para ouvi-la dar um: “Glória a Deus!” Mas não resisti ao desejo de falar a vocês, já que estava aqui tão perto.
- Parabéns, colega! – exclamam os gêmeos juntos, abraçando o amigo.
- Agora, só faltaria uma coisa para minha alegria ser completa...
- O que? – perguntam os gêmeos quase ao mesmo tempo.
- Que a minha Lelê soubesse e acreditasse que eu não vou mais beber e que voltasse pra mim.
- Dá um tempo pra ela, amigo. – aconselha Otávio.
- É, cara, ela ainda deve estar muito magoada, a briga foi feia, ela tem que por as idéias em ordem. – pondera Olavo.
- É muito duro. Depois do Reveillon, eu nem vi meus filhos. Ela tem medo de deixá-los comigo. Eles devem estar muito tristes também.
- A ansiedade só vai atrapalhar. - analisou Olavo - Se você já conhece o programa de recuperação dos Alcoólatras Anônimos, sabe que se fala muito dos estágios emocionais e a depressão, vem logo depois da euforia. Se você ficar pensando nos seus prejuízos, não conseguirá avançar mais na sua recuperação. Se você tem certeza de que não beberá mais, continue se esforçando para manter o equilíbrio. Dê um tempo para você também.
Apesar de sentir-se muito melhor, confiante de que não beberia mais, Vitor não se libertava da dor da separação. Já não estava mais melancólico, porém imensamente triste. Por muitas vezes, chegava a chorar ouvindo no rádio ou em discos de sua coleção, as músicas românticas que pareciam contar as fases de seu casamento.
Uma vez, ouvindo uma música cujos versos diziam: “Eu não devo insistir, nosso amor complicado, não podia dar certo”, chega a pensar alto:
- É... Eu não devo insistir mesmo.
Passado mais de um mês de sua separação, Helena autoriza Allan a passar um fim de semana com o pai. O menino sentia mais saudade dele do que Bertinha e Celinha, pois com o ocorrido, ficaram bem mais próximas da mãe, embora conversassem com boa vontade com o pai pelo telefone, desculpando-se por ainda não o terem visto.
Allan aproveita o quintal enorme da avó para andar de bicicleta, passeia com esta e Vitor, já que Helena havia solicitado à sogra que estivesse sempre em vigilância, pois ainda não acreditava que Vitor tivesse parado definitivamente de beber. Na sua visão, ele poderia ter de uma hora para outra a chamada recaída.
Allan volta muito feliz para Sepetiba e comenta com a mãe:
- Mãe, eu me diverti tanto!
- É filho?
- Foi muito bom!

- É mesmo?
- O papai nem bebeu.
- É? – Helena pergunta de uma maneira descrente, pois deduzia que Vitor estaria aparentando um controle diante do filho para recobrar a sua confiança.
Noutra ocasião, as meninas vão junto com o irmão caçula.
Na sua última semana de férias, os três matam as saudades do pai, que aproveita para saber da mãe:
- Como está sua mãe? – pergunta à Bertinha
- Está bem, pai.
- Bem mesmo? – pergunta Vitor com um ar desconfiado.
- É...
- É...o que?
- Ah... sei lá, pai. Eu acho que ela sente a sua falta.
- Ela comentou alguma coisa com você?
- Não, mas a gente sente isto. Minha mãe não é de falar, mas eu...
- Você o que?
- Pai, você promete que não conta nada à Celinha?
- O que, minha filha?
- Pai sobe aqui comigo.
Bertinha aproveitava o momento, pois Allan e Celinha haviam saído com a avó. Pega o pai pela mão e sobe com ele até o quarto. Chegando lá, abre a mochila e mostra vários papéis amassados.
- O que é isto? – perguntou intrigado Vitor.
- Lê, pai. – Bertinha entrega os papéis para o pai, que os abre para entender o que está escrito. Reconhece que a letra é de Helena:
“Apesar de separada, não consigo parar de pensar “naquele mala” do Vitor. Parece praga! Eu quero esquecer, preciso esquecer, mas não consigo! Fico representando pros meus filhos, espero a noite pra poder chorar. Dizem que eu já me separei dele tarde, que ele não merecia ter sido casado comigo tanto tempo, me fazendo aturar as bebedeiras, às humilhações que ele se expunha. Mas o que fazer? A gente não escolhe de quem a gente vai gostar! Por que eu precisava fazer o que fiz no fim do ano? Ele estava errado, claro, mas eu estava tão cheia que queria me vingar. Agora, os meus sonhos foram por água abaixo. Eu queria adotar uma criança. Queria mais uma menina. Tinha falado com ele, ele concordou. A Lolô disse que ia entregar o caso a uma amiga. Como é difícil! O pior é ter que admitir que eu ainda amo aquele cara! Mesmo sofrendo, não vou “entregar os pontos!”Ele tem que sentir o que fez comigo todos estes anos! Vou chorar de novo...”
Bertinha, querendo fazer as vezes de “cupido”, achara os papéis amassados ao acaso no lixo ainda quase vazio. Sem que a mãe percebesse, guardou-os consigo na intenção de mostrá-los ao pai, logo que tivesse oportunidade.
- E então? – perguntou Bertinha, como que esperando uma conclusão do pai.
- Você é esperta, hein, filha? Mas eu acho que ela não vai voltar pra mim. Ela está muito magoada.
- Pai, a minha avó Marisa diz sempre que as palavras têm poder. Você tem que acreditar que ela vai lhe perdoar. Se você ficar nesta de que ela não volta, aí é que ela não volta mesmo.
- Vamos ver...é dar tempo ao tempo.
Apesar da ansiedade, Vitor procurava conter-se. Um fio de esperança começa a nascer em seu coração e lembra-se das palavras de Angelina. Mesmo assim, ainda se pergunta: “Será que ela sente a minha falta?” “Será que ainda lembra nossos bons momentos?” “Devo ter esperança?” Só o tempo responderia.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

CAPÍTULO XII UM DIFÍCIL RECOMEÇO

CAPÍTULO XII
UM DIFÍCIL RECOMEÇO
Um novo ano começa, e velhos problemas se repetem; embora Vitor até chegue a prometer não beber mais, tudo é em vão, pois não resistia aos convites dos “amigos”.
Helena procura seguir sua vida de forma resignada, mas vendo que a situação chegava a um nível cada vez mais difícil de tolerância, vê como uma estratégia sair nos fins de semana com os filhos e começa a levá-los para o sítio de uma amiga na zona oeste.
Devido à sua persistência em ir ao ALANON, permanecia firme no propósito de não brigar com Vitor e não questioná-lo em relação à sua resistência em recuperar-se do alcoolismo.
Embora algumas vezes distante, Helena sentia saudade de Vitor, do seu jeito engraçado, mesmo quando bêbado em momentos que a bebida não fazia nele um efeito agressivo.
Numa de suas saídas, Helena, na casa de sua amiga Joyce, ouvia atentamente ao rádio, prestando atenção numa música.
- Quanta concentração. – comenta Joyce.
- Ah...
- Esta música diz alguma coisa a você?
- É...Uma das minhas músicas com o Vitor.
- Que privilégio, vocês não são casal de uma música só.
- Pois é...
- É, você está aqui, foge dele, mas não esquece dele.
- Que fazer.
- Não posso nem opinar, não há um antídoto antipaixão.
- Olha, Joyce, eu já quis jogar tudo pro alto, mas quando eu vejo a Bertinha e a Celinha... – o Allan nem tanto, é muito pequenino embora sinta a falta do pai – Será que a gente deve pensar tanto assim nos filhos?
- Ah... Deve! – incentivou Joyce. – Se o casamento não dá certo, pelo menos restam eles de bom.
- O seu caso é diferente Joyce. O Vitor nunca me traiu.
- Bem... Você tem certeza?
- Se ele fez, fez muito bem feito. Ele está sempre com os amigos.
- Os “amigos”, Helena, são unidos na hora da traição. Você acha que algum “amigo” do Vitor diria para você: “Helena, Vitor está traindo você”.
- Não acho, mas eu conheço, por exemplo, aqueles gêmeos, Olavo e Otávio e acredito que se eles soubessem, não o apoiariam.
- Como você é ingênua, Helena! Homem é tudo igual.
- Joyce, você está descrente por causa do seu casamento que acabou por causa de traição. Não são todos iguais, não.
- Espere, pra ver.
As palavras de Joyce pareciam duras demais para Helena, que apesar de chegar aos 30 anos com um casamento marcado por frustrações, até insatisfações pelo jeito acomodado do marido, suas bebedeiras, conservava ainda algum romantismo e esperança, crendo que um dia tudo ainda cessaria.
Helena via que estava fugindo, pois no íntimo sabia que qualquer pessoa de bom senso diria o que outras já haviam lhe dito: “Separa!” “Este cara não tem jeito, é um acomodado!” “Para de pensar nos filhos, na família dele, pensa em você!” Helena ficava com a mente atordoada, não conseguia saber o que fazer, o que deveria fazer. Apesar do comportamento de Vitor incomodá-la, não era fácil, mesmo não vendo possibilidade de mudanças, tirá-lo de repente de sua vida. O menino “mal educado”, o rapazinho idealista, contestador, o apaixonado jovem que ao atingir a maioridade retornava após um exílio de quase 5 anos e com seus olhos castanhos penetrava nos seus verdes, declarando: “Eu vou me casar com você”. Não, Helena não poderia deixá-lo.
Várias vezes ela chegara a ameaçá-lo disto e ele, no estágio de depressão, quando a bebida tomando todo o seu ser, já havia mandado a euforia embora chegava a implorar-lhe que não o fizesse. Quantos sentimentos confusos: amor, mágoa, revolta. Sentia-se usada, manipulada pelo marido, influenciada por terceiros. Ao final de tudo, sem ação.
- Eu vou parar de beber, Lelê.
- Vitor, não prometa para mim, mas para si mesmo. – era o que restava dizer. Ele tinha que ter a consciência exata do que deveria fazer, não para agradá-la, mas para viver bem, primeiramente consigo mesmo.
O ano mal começara, Vitor continuava do mesmo jeito e a relação do casal cada vez mais estagnada.
Tudo levava a crer que seria mais um ano como todos, mas, Eglantine contraíra um câncer, detectado um pouco tarde. Este se intensifica e as despesas do colégio vão aumentando em decorrência do tratamento de saúde que exigia muitos gastos.
Eglantine falece e com ela o estabelecimento. É uma perda mais do que dupla para os professores, alunos e todo o corpo administrativo. Francine reúne todos e comunica a triste decisão:
- Gente, eu não sei nem como começar. A perda que sofremos foi total e irreparável. Eglantine fez falta em todos os sentidos. Era uma pessoa admirável, muito mais que uma amiga, uma irmã, uma mãe para muitos alunos, colegas e professores. Eu sei o que todos estão sentindo, a nossa dor é a mesma. Não temos mais o nosso “braço forte”. Infelizmente, os gastos com a doença foram muitos. Nosso colégio nunca foi uma

fonte excelente de lucro. Não há outra saída a não ser aceitar a proposta de uma empresa que quer comprar o prédio e fazer um empreendimento no local. Assim, nós poderemos pagar aos professores indenização e saldar as dívidas do tratamento de Eglantine. Amei todos os momentos em que estivemos juntos neste colégio. Nós, com todas as nossas diferenças, soubemos ser uma família. Não vamos deixar de nos ver. Como uma grande família que um dia separa-se porque é natural que cada um siga seu rumo, ainda havemos de nos encontrar. Agradeço a todos os serviços, dedicação, amizade, apoio aos alunos, que para nós são como filhos. Sem vocês, nada seria possível. Somos parte um do outro. É muito difícil a separação, mas não há outra saída.
Era mais um fim. Um fim na vida de muitos, uma continuação para outros, um grande recomeço para alguns, inclusive para Vitor.
Com a situação do fechamento da escola, a situação financeira do casal Vitor e Helena, agravava-se. Não há outra saída senão vender o apartamento e iniciar uma vida nova, num lugar onde pudessem viver uma vida sem muitos gastos e construir um futuro para os filhos.
O casal Carajás oferece aos dois a casa de Sepetiba, que quase não era utilizada, senão para férias de veraneio.
Marisa via sua vida mudar também, pois Genaro e Soraya, após um ano de noivado sério, casavam-se.
Conceição realizava seu sonho: a filha era entregue intacta a um jovem trabalhador, responsável e honesto, provando seu amor pela jovem, que largava a carreira de modelo para vir a desempenhar não por imposição, mas por prazer o papel de esposa e futuramente o de mãe. A bela cabocla teria uma vida de conforto, bem estar, muito diferente da que a mãe levara, criando-a sem pai, sacrificando-se para que ela crescesse bem amparada.
Tudo parecia bem para os outros irmãos de Vitor, que assim como Genaro tinham as obras de suas mansões no mesmo terreno bem adiantadas.
Paulo e Heloísa iam bem em suas carreiras e Sérgio, agora noivo de Lúcia, casar-se-ia com esta no próximo ano.
A matriarca dos Castelli, via seus filhos seguindo rumos em suas vidas. Ficava feliz pelos outros e pedia a Deus para consolá-la na angústia em relação a Vitor, pelo qual orava sem cessar.
Vitor saíra do CAMEC e recomeçava trabalho com aulas particulares em Sepetiba, onde Helena, tendo o curso normal dava aulas numa escolinha que montara, com a ajuda do pai, que lhe dera um dinheiro, parte de uma herança de uma tia.
Os irmãos Olavo e Otávio, que tinham uma firma de propaganda e uma editora chamam Vitor para trabalhar com eles no seu escritório no Centro da cidade. Felizmente, eram amigos fiéis.
Os de mesa de bar, na hora da dor, sumiam. O amigo Vitor só era querido para financiar as noitadas dos que eram “duros”, ou para “rachar” as bebidas.
Vitor começava a sentir o quanto estava só. Não na realidade por falta de quem o quisesse bem, mas deparava-se com a dura realidade de que para muitos, na realidade o interesse era ter o parceiro no vício, alguém que pudesse afundar no mesmo barco que naufragava no mar da cachaça. Sua solidão era cada vez maior, apesar de Helena e dos filhos.
Olavo e Otávio se faziam cada vez mais presentes como amigos e conhecendo Vitor desde menino, sabiam que ele tinha um potencial escondido, que havia algo dentro dele pulsando, querendo explodir. Como bons e verdadeiros amigos, procuravam despistá-lo da bebida e incentivá-lo no que tinha de bom.
Um dia, observando seus escritos, Olavo indagou:
- Vitor, eu lembro de uma poesia que você escreveu numa mesa de bar que achei maravilhosa. Eu não lembro o nome, mas é uma que você sabe de cor.
- Será que é “Luz da Poesia?”
- Acho que é.
- Recita aí.
- “Quando vemos um sol pela janela, deixemos que ele entre em nosso coração. Se a porta do amor parece fechar, abrimos e expulsamos o sempre não. O dia que chega e traz a alegria esperada e ansiada ao momento final, nos dá a certeza que a vida vivida, é bem tão divino quanto a glória do céu. E no desencanto” do dia após dia “, quando pensamos que tudo acabou, então constatamos que a luz da poesia traz todo o encanto que a vida mandou”.
- Bravo! Excelente! - Olavo aplaude entusiasmado - Você já a registrou?
- Não.
- Pois deveria, porque além de ser muito boa, é um trabalho que não deve ficar por aí jogado. Um dia alguém encontra e se apropria indevidamente. Siga o meu conselho: registre não só esta como todas as melhores poesias que você tiver. Você tem muito talento e não deve desperdiçá-lo. Podemos até editar um pequeno livro de poesias suas. Não é muito dispendioso.
Vitor via uma oportunidade de expressar seu talento. Sentia-se confiante. O entusiasmo, porém, não era muito compartilhado por Helena, que já nos seus desencantados 11 anos de casada, via o marido como um eterno sonhador.
- Lelê, eu estou selecionando minhas melhores poesias.
- Só pensa nisto, hein?
- “Pôxa...” pensei que você ia me dar a “maior força”.
- Vitor, eu não tenho nada contra que você edite um livro, até gosto de suas poesias, mas tenho coisas muito mais sérias pra pensar.

Apesar de um pouco decepcionado com o descaso de Helena, Vitor prossegue a idéia de lançar o livro de poesias e no meio daquele ano lança o livro que teria vinte das suas melhores poesias e com a dedicatória: “Á minha esposa Helena (Lelê, na intimidade) cuja minha vida e inspiração pertencem”.
O lançamento do livro, na própria editora de Olavo e Otávio foi simples, Mas com presenças importantes além dos familiares do autor.
Elisa, que já tinha ao seu lado o “varão dado por Deus” pelo qual tanto orara de nome Josué, comparecia e incentivava o sucesso do amigo.
Aquele “sucesso” era “fogo de palha”, uma vez que os gêmeos tencionaram com o livro, que o amigo pudesse canalizar a sua atenção para algo mais produtivo.
O livro não teve uma tiragem grande e, portanto rendeu pouco ao seu autor.
Vitor continuava trabalhando e... Bebendo. Helena continuava a freqüentar o ALANON, mas não tinha tanto empenho quanto outras esposas, pois na sua maneira de encarar o problema, considerava-o de fato como sendo do marido e não seu.
Por sugestão de muitos, Vitor acaba aceitando visitar os Alcoólatras Anônimos, mas por mera curiosidade, numa atitude de ver: “Qual é a deles.” A teimosia ainda era um de seus maiores defeitos. Até chegava a afirmar: “Antes bêbado conhecido do que alcoólatra anônimo”. Seu espírito galhofeiro ainda permanecia latente. Porém, mal sabia ele que espírito na realidade era este.
Como em todo o fim de ano, as famílias reunidas fazem suas festas e com a do clã Castelli não seria diferente, apenas com uma novidade: o Reveillon daquele ano seria no recém – inaugurado SOLAR CASTELLI, que abrangia as três mansões num vasto terreno do Recreio, com piscinas, sauna, churrasqueira, quadra de tênis, porteiro eletrônico, salões de festas e muito verde emoldurado por lindos jardins.
Enquanto o primogênito decaía, os outros irmãos festejavam a acelerada e infinita ascensão.
Como não poderia deixar de ser, mais motivos para beber: inveja, mágoa, complexo de inferioridade. Uma falsa alegria toma conta de Vitor, que eufórico grita no meio de vários “socialites”:
- Viva a democracia! Viva Tancredo! Diretas já!
- Que cara chato! – Alguns comentavam. Helena, sentindo-se humilhada, vendo o marido como alvo de zombarias, não agüenta e fica dentro da mansão de Soraya, acompanhada por esta e Heloísa.
- Helena, não “esquenta”. É fim de ano, isto é natural, ninguém está ligando.
- Não queira me consolar, Soraya. Eu vi pessoas debochando dele. É duro.
- Fica calma minha irmã. O Paulo vai trazê-lo pra dentro, o Genaro ajuda. – lá fora, Genaro, Paulo e Sérgio trazem o irmão para dentro quase a força, embora Paulo e Genaro sejam mais duros, Sérgio procura ser tolerante com o irmão, que já começava a sentir-se vencido pelo excesso de bebida.
- Você vai tomar este café – grita Genaro – Como você pode fazer isto comigo, seu próprio irmão? Tem gente importante aqui. Pessoas com as quais estou fechando negócios.
- Vê se toma jeito, Vitor. – reforça Paulo.
- Vitor, pôxa mano. Estou triste com isto. – lamenta Sérgio - Você é o meu exemplo de homem desde menino. Papai morreu quando eu tinha 14 anos. Você ficou sendo como que um pai para mim. Não se destrua assim, meu irmão.
- Eu estou acabado... – Vitor começa a chorar. – Cadê a Lelê?
- Você não vai falar com sua mulher neste estado – adverte Genaro.
- Vitor, você vai subir com a gente – ordena Paulo – mais tarde fala com a Helena. Agora deixa sua mulher em paz. Você já fez muito mal a ela noutras vezes e não vai mais fazer agora. Se você ainda quer salvar seu casamento, vai subir, tomar um banho, deitar e esperar amanhecer de “cabeça fria!”
A resistência de Vitor era imensa, mas Genaro e Paulo conseguiriam dominá-lo. Heloísa, também “dava duro”:
- Cunhado, se você não nos atender, vou usar de força, dou-lhe um golpe de karatê. – Heloísa ameaça.
- Não enche! – replicou Vitor agressivamente.
- Genaro! – Heloísa chama - ao ver o irmão, Vitor recua. – Genaro e Paulo levam-no para cima e jogam-no no chuveiro frio. Depois de horas de sono, Vitor levanta tonto às 2 horas da tarde. Soraya está coordenando a arrumação da mansão depois da festa, dando instruções a empregados e vê Vitor.
- Oi cunhado.
- Oi...
- Vitor, que “papelaço!”
- Desculpe.
- Olha, não peça desculpas a mim, mas a si próprio. Depois, lembre-se de pedir à sua mulher e aos seus filhos. Eles não merecem isto. Você também não deve fazer isto consigo mesmo, está se destruindo. Quando você parar e refletir, pode não ver mais nada na sua frente, porque eu francamente confesso que não suportaria o que a Helena suporta. Um dia ela cansa de vez e você ainda vai chorar muito por não ter conseguido se dominar. Estou falando com você isto, porque quero o seu bem. A minha mãe teve um irmão alcoólatra, era um bom homem, mas um dia viu-se só e morrendo de cirrose hepática. Você ainda tem chance, tem gente que o ajuda. Eu estou vendo seus irmãos ficarem cansados disto, sua mãe sofrendo. Pense em quantos o querem bem. Está difícil por causa do seu vício que consiga até um bom emprego! Olha lá, você já tem 33 anos! Neste país, as chances são poucas para as pessoas nesta faixa de idade. Você

tem qualidades, tome uma decisão. Soube que você já foi aos Alcoólatras Anônimos e não gostou. Eu digo que já sei por quê: por que você viu pessoas que já se comprometeram a sair do vício, outras que já saíram dele e você não aceita que o tem. “Toma tenência, rapaz!”
Refletindo sobre as palavras de Soraya, Vitor sente-se envergonhado. Quando volta para casa, Helena não se dirige a ele e Bertinha fala com o pai:
- Pai, a mamãe tem razão em não querer falar com você. “Tava cheio de gente” lá, rindo de você. Você não pensou na gente. Pai, eu só tenho 10 anos, mas eu sei que uma coisa eu nunca vou fazer na vida: beber. Só de ver o que acontece a você, eu tenho nojo de bebida. Pai será que nem se eu pedir, você consegue parar de beber?! Por favor, pai! – Bertinha fica às lágrimas e Vitor ajoelha-se a abraçando desesperado.
- Filhinha, eu vou tentar...eu tenho medo de prometer e não cumprir. – Helena ouve escondida a conversa e também tem vontade de chorar, mas fica firme. Estava decidida a endurecer para que Vitor mudasse de atitude. Se ele não mudasse, pelo menos ela o faria. Sentia que teria que lutar pelo casamento até onde pudesse, pois sabia que os filhos sofreriam com a separação.
Vitor consegue durante algum tempo parar de beber. Ele e Helena vão aos poucos começando a se entender e procuram não ir aos lugares onde houvesse bebidas. Vitor continua a ir aos Alcoólatras Anônimos, porém ainda como mero espectador, ouvindo os depoimentos, mas nunca aceitando dar a palavra. Na realidade, Vitor tomava uma atitude de “quebrar o galho”, se bem que durante algum tempo conseguiria não beber.
Durante as férias dos filhos, Vitor aproveita para dedicar-se mais a eles e ajudar Helena, que pelo serviço doméstico e os afazeres com a escolinha, sentia-se exausta.
Como Olavo e Otávio eram na realidade amigos e não patrões, numa de suas idas ao escritório que ficava mais sob sua responsabilidade do que a dos gêmeos leva suas filhas, que acham tudo uma novidade. Precisando descer, Vitor avisa:
- Gente, eu vou precisar descer. Como sei que não devo deixar as duas sozinhas, você que é a mais velha fica aqui, Bertinha, enquanto eu desço com a Celinha.
- Ah, pai, sempre eu? – reclama Celinha.
- Eu te dou uma coca-cola. – sussurra Vitor ao ouvido de Celinha.
- Ah, tá!– responde ela animada.
- O que foi que você falou pra Celinha? – pergunta Bertinha enciumada.
- Segredinho nosso – despista Vitor.
- Ela não queria ir e mudou logo!
- Vamos lá, Celinha.
Os dois divertem-se e depois do lanche tem uma idéia:
- Quando a gente subir, vamos “atiçar” a sua irmã; você diz que eu dei coca-cola e agente leva um pacotinho desses sonhos pequenininhos pra ela.
- Tá. – Ao subir, Celinha faz uma pose, cheia de si e fala:
- Saí com meu pai porque ele me deu coca-cola.
- Eu sabia!
- E sonho.
- Trouxemos pra você.
- Oba! – Bertinha mete a mão no saquinho e lambuza-se de sonhos.
Na família Castelli, não há muitas novidades.
No clã dos Carajás, sim, pois sua filha caçula Hélida (Lili) dá a luz a sua primeira filha: Mariana.
Nos fins de semana, ainda nas férias dos filhos, Vitor e Helena vão à casa de Marisa, a avó sempre presente e incansável que recebia sempre filhos e noras com um banquete.
Vitor, numa bela tarde ensolarada de sábado, vai com as filhas andar de bicicleta na Lagoa, enquanto Allan fica com a mãe na casa da avó.
Bertinha e Celinha divertem-se, apostando corrida, mexendo com as pessoas e até cantando quando vêem outras meninas de bicicleta, cantando: “Menina vai, com jeito vai, se não um dia, a casa cai”. Tudo parece bem, quando Vitor encontra um amigo.
- Vitor?
- Oi, Humberto.
- Você engordou um pouco hein?
- “Desemagreci”, você quer dizer.
- Sempre piadista. Seus filhos estão aí?
- Só as meninas, o meu caçula está com a Lelê na casa da minha mãe.
- Estão grandes, hein?
- A mais velha, a Bertinha, cresceu mais, está com 11 anos e a outra, a Celinha, vai fazer 8.
- Sei... – os dois continuam conversando, passando por um lado da Lagoa onde há uma ponte inclinada. Como Celinha está dirigindo a bicicleta mais acelerada, não consegue frear e esta vira fazendo a menina cair-
- Cuidado! – grita apavorada uma mulher que passava do outro lado – Celinha fere a têmpora esquerda e Vitor, que não tivera tempo de impedir a queda da filha, vai desesperado em seu socorro, pegando-a no colo. Celinha chora muito de dor.

- E agora? – Vitor fica sem saber o que fazer.
- Tem um atendimento médico neste clube aqui perto. Vamos lá, Vitor! – sugere Humberto.
Enquanto isto, Helena está despreocupada na casa de Marisa, conversando com Tonha.
- Como está tudo?
- É, bem na medida do possível.
- O Vitor não está bebendo, está?
- Pelo menos por enquanto, não.
- Creia que ele já parou.
- Eu confesso que não tenho a mesma fé que vocês. Prefiro ser mais realista e crer no que vejo, sem esperar pelo que ainda não vi acontecer para não me decepcionar. Eu estou levando.
- Helena, ele vai parar de beber, eu creio nisto, Marisa também.
- Sabe, Tonha, eu acho que ainda não me separei do Vitor, porque ele tem ainda um lado muito romântico.
- Por que você diz ainda?
- Por que eu não sinto que eu ainda seja romântica. Eu estou ficando cheia. Ele continua fazendo poesias pra mim, continua carinhoso. Às vezes até enche, porque é “melado” demais.
- Ele a ama como você é, procure aceitá-lo com os defeitos e qualidades dele. Ele sempre foi um bom menino, até muito melhor do que os outros. O Vitório era muito exigente com e ele, porque ele sempre foi polêmico, sempre foi contrário às normas rígidas, mas eu digo: no que ele tem de bom, foi aperfeiçoado, os irmãos, depois que começaram a ganhar dinheiro, ficaram de um jeito, que nem a Marisa está reconhecendo. O Sérgio eu não incluo, porque está bem de vida, mas é outro temperamento. Está apaixonado, vai casar. Mas o Paulo e o Genaro estão ficando cheios de si, o Genaro então parece que se acha dono do mundo.
- Mas também está feliz.
- Está feliz, mas está dando pra ficar esnobe. Eu não fui ao Reveillon dele porque em primeiro lugar gosto de passar na igreja e depois, não me sentiria bem no meio daquela “granfinada”.
- A Soraya sentiu sua falta.
- Mas ela é um amor, uma pessoa humana, que veio de uma origem pobre e não ficou metida. Eu já conheci o “Solar”, achei uma beleza, mas eles, parecem que esqueceram desta negra que ajudou a criá-los como filhos. Com exceção do Vitor e depois do Sérgio, sinto uma diferença muito grande.
- Não esquenta com isto, Tonha.
- Minha querida, eu oro por todos eles. Deus não faz acepção de pessoas, apesar do ser humano fazer.
- Eu estou começando a ficar preocupada. O Vitor está demorando muito. Será que ele foi beber outra vez?
- Junto com as meninas, Helena? Ele não seria tão irresponsável.
- Eu espero por tudo, Tonha. Ele pode ter encontrado algum amigo e... Sei lá...
- “Esfria”, minha querida.
Pouco depois, quando Helena vai ficando mais apreensiva, chegam Vitor, Bertinha e Celinha, com um curativo e Humberto acompanhando os três.
- Que foi isto na minha filha?! – exclama Helena assustada.
- Lelê, eu posso explicar...
- Começa a explicar logo!
- Calma, ela levou um tombo da bicicleta.
- Seu irresponsável! – Helena parte para cima do marido e Humberto procura ajudar.
- Calma, Helena, estas coisas acontecem.
- Acontecem? Minha filha podia ter morrido! O lugar onde ela feriu é muito perigoso! Aposto que vocês ficaram batendo papo e deixaram a menina pra lá.
- Mãe, ela estava dirigindo a bicicleta muito rápida numa ponte muito inclinada. Não foi culpa do papai. – defendeu Bertinha.
- Puxa bastante o saco do seu pai, puxa! Queria ver se tivesse sido pior! Ainda bem que o Allan ficou aqui comigo!
- Minha querida, não fique assim, foi um livramento de Deus. – contemporiza Marisa.
- Ah, Marisa! Não me vem com esta conversa! Você está querendo botar “panos quentes no seu filhinho!”
- Gente! Vamos acabar com esta discussão. – interfere Tonha – foi desagradável, o Vitor não vigiou, mas o amigo dele ajudou. Podia ser um daqueles que quando acontece alguma coisa cai fora e não foi assim. Eu agradeço a ajuda dele em nome de todos, porque a Celinha está bem e mesmo que você não acredite Helena, foi um livramento, porque o Vitor também há muitos anos caiu de bicicleta de uma altura que outro também caiu e acabou ficando dois meses engessado. Vamos entrar, tomar um café e “esfriar a cabeça”.
Helena se acalma, mas não consente mais que Vitor saia sozinho com os filhos sua confiança no marido vai cada vez mais se extinguindo.
Como os familiares pensam em conciliar, vendo que Helena está cada vez mais tensa e cansada, Heloísa e Paulo oferecem ficar com os sobrinhos por uma semana nas férias. Para os três, ficar naquele espaço enorme era melhor do que qualquer outra diversão. Lá, todos se maravilham com o imenso jardim, as piscinas e o contato principalmente com Soraya e Heloísa.

Os tios Genaro e Paulo, não se mostram muito desembaraçados, mas são simpáticos com os sobrinhos.
Coisas engraçadas acontecem, principalmente com Bertinha e Celinha, numa ocasião em que Heloísa deixara as meninas com Paulo, pois saíra com Allan e Daniel.
- Celinha, que acha de deixar o tio Paulo doido?
- Como assim?
- Vamos aproveitar que ele está sozinho com a gente e curtir um pouco com a cara dele, vamos fingir que estamos brigando.
- Vai ser “engraçadão!” – concorda a menina rindo. Bertinha começa encenando a briga:
- Eu te odeio!
- Quem te odeia sou eu! – responde Celinha quase rindo.
- Desgraçada, eu vou te quebrar!
- O que é isto, meninas, parem! – Paulo que estava no seu escritório próximo à sala, corre para separá-las. As duas rolavam no chão fingindo se agredir. – Vocês são irmãs, não briguem! – Paulo fica desesperado.
- Tio! Esta menina é uma chata! Ela vive implicando comigo! Eu vou acabar com ela! – Bertinha joga-se em cima de Celinha, que de tanto rir, finge que está chorando, pois chegara às lágrimas.
- Ela tem inveja de mim! Eu sou mais bonita que ela! – encena Celinha.
- Que é isto, minhas queridas, não briguem! O que eu vou dizer pra sua tia quando chegar?
- Que eu matei esta garota! – responde Bertinha. Novamente se jogando em cima da irmã, que continua rindo, convencendo ao tio que está chorando.
- Viu como esta menina é covarde? Eu sou menor, me salva, tio!
- Parem!!! Pelo amor de Deus, parem!!! – neste momento, chega Heloísa com Allan.
- Mas o que é isto?
- Elas...Elas estavam brigando.
- Elas estavam brigando como qualquer irmã briga e você está com esta cara de quem viu assombração? “Dá um tempo”, Paulo.
- Mas...
- Mas o que?
- Elas estavam se machucando.
- Não tem problema. Eu ainda lembro de tudo que aprendi quando enfermeira, eu prestaria os primeiros socorros se uma esfacelasse o crânio da outra.
- Não brinca com isto, Helô!
- E você, não leve tão a sério.
- Mas Helô...
- Paulo, chega, tá?
- Você tá vermelho, pai. – observa Daniel achando graça.
- Tio Paulo fica engraçado quando nervoso. – se diverte Allan.
As meninas trancam-se no quarto para poder rir.
Quando as crianças retornam, o casal Vitor e Helena, já haviam voltado “às boas”.
Helena resolve viver o momento presente, não se iludindo que o marido, como já haviam prevenido no ALANON, poderia ter uma recaída. Como não o via beber tinha esperanças de que pudesse conscientizar-se do quanto o álcool era prejudicial. Porém sabia, que não bastava falar, ele teria que entender.
Um dia, Elisa vai com o marido Josué e sua filhinha Ester visitar o casal. Pela liberdade que tinha com os dois, pergunta:
- E aí, Vitor, como é que está esta “força?”
- Estou bem.
- Querido, quando você entender o que é Jesus na vida de alguém, vai saber o que é estar bem.
- Ih...Já começou com este papo?
- Vitor, quando você quiser, Jesus está sempre disposto a “bater um papo” com você. Não precisa nem marcar hora.
- Ele vai se materializar é? – debocha Vitor.
- Não precisa. Basta você fazer com Ele como todo aquele que. O aceita como salvador faz: “Eis que estou à porta e bato, aquele que abrir, entrarei e cearei com ele” (Apocalipse, 3; 20).
- Tá...
- Vitor, eu também tive na minha vida razões para não acreditar que o amor de Deus existisse. Eu aos 14 anos fui posta pra fora de casa, porque tinha me envolvido com um marginal, 10 anos mais velho e que, portanto, deveria ter muito mais noção de certo e errado do que eu. Eu comecei a me “virar” cedo, trabalhei em botequim, fui servente em colégio, fui aprendendo a cozinhar e podia ter parado em reformatório, não fosse as pessoas que conheci terem pensado que a minha vida ia acabar se eu tivesse ido para um. Deus me guardou, impediu que isto acontecesse, pra que eu não virasse uma marginal também. Conheci o General e Dona Marta, que foram maravilhosos, me empregando na casa deles, mas tomando afeição a mim. Entenderam que eu era trabalhadora com vontade de vencer. Eu venci, eu estudei, terminei o 2º Grau, coisa que poucas pessoas na minha condição social conseguem. Fiz cursos, aprendi a fazer comida congelada. Hoje, eu tenho um Buffet. Não consegui nada de um minuto pra outro. Tudo veio aos

poucos. Mas, depois que eu conheci Jesus, tudo mudou e o que estava bom, ficou melhor ainda. O que faltava, antes de eu ter o meu próprio negócio, era ter um varão. Deus me deu o Josué. Nós somos felizes e temos uma filha linda cheia de saúde.
- Pra que este discurso todo?
- Pra você entender, que quando você aceitar Jesus, tudo pode mudar na sua vida. Eu O aceitei e a minha vida foi muito mais difícil que a sua. Pra ser franca, Vitor, antes de ter Jesus, eu, que havia dado força pra Lelê casar com você, achava que ela tinha que te largar, porque eu não tinha estrutura pra agüentar seus porres. Pense no que eu disse, porque foi para te abençoar. Depois, não vá se queixar com a Lelê que eu me meto na sua vida. Eu sei que posso parecer chata, sei até que muitas vezes falo até demais. Mas eu prefiro falar pra depois não me sentir culpada de não ter falado. Se eu já o magoei alguma vez, ou se agora eu lhe pareci invasora, a única coisa que posso fazer é pedir perdão. Eu e Deus sabemos qual foi a minha verdadeira intenção.
Apesar de até refletir sobre as palavras não só de Elisa, mas de várias outras pessoas que o haviam alertado, Vitor tinha uma personalidade controversa; o “querer e o não querer parar de beber” “Eu sou assim, mesmo”, “Eu não consigo”, “Será que tenho que parar de beber?” Todas estas idéias conflitantes passavam pela sua mente.
Vitor driblava Helena, bebia quando esta estava longe, pois algumas vezes passava fins de semana no sítio de Joyce com os filhos, quando o marido apresentava irritação pela abstinência da bebida.
Chegava o dia do casamento de Sérgio e Vitor teria que se controlar, pois como em todas festas haveria uma variedade de bebidas. O senhor Antonio Carlos, pai de Lúcia, homem muito bom, humano sabia por Sérgio das dificuldades de Vitor. Com muita sabedoria, fala ao genro:
- Sérgio, seu irmão não é o primeiro nem será o último a ter dificuldades com a bebida. Pode ficar tranqüilo, eu vou dar a ele o que precisa: amizade. Muitas pessoas não aceitam as dificuldades, vícios de parentes. Mas, quando alguém que não está envolvido resolve ajudar, as coisas podem melhorar.
- Ah, “Seu” Antonio Carlos, a coisa não está fácil, meus irmãos já estão saturados.
- Deixa comigo, meu querido.
Realmente, o Sr. Antonio Carlos cumpria a promessa. O que muitos não conseguiam, a maior parte do tempo, passou ao lado de Vitor, conversando com este, instruindo o garçom para passar rápido, sem que desse tempo dele pegar alguma bebida. Quando não pudesse estar, mandava a mulher, Dona Luiza ou a filha conversarem com Vitor. Vitor só conseguiu tomar alguns goles de champanhe na hora do bolo.
- O senhor é esperto, hein, “sogrão?”. – elogiou Sérgio.
- Meu filho, são muitos anos de vivência. Conheci as mais variadas pessoas. O segredo é saber lidar com elas. O seu irmão me passa ser uma pessoa fantástica, o que ele precisa é sentir-se realizado. Precisa ter mais confiança em si.
- O senhor agora disse tudo.
Apesar da estratégia do sogro do irmão caçula, Vitor não estaria livre de recaídas.

quarta-feira, 25 de março de 2009

CAPÍTULO XI A FIDELIDADE DE DEUS

Com o passar dos dias e o fim das férias, a rotina de Vitor e Helena recomeça, porém um pouco diferente, já que Vitor, diante de um sentimento de ameaça de separação, procurava evitar beber. Conseguiria até durante um bom tempo dispensar o tradicional chopp dos sábados com os amigos. O casal iria mais à casa de Marisa que seria um “porto seguro”, pois lá, desde o falecimento de Vitório não entrava uma garrafa de álcool.
Como em todos os anos existem as costumeiras comemorações em família, lá estaria a dinastia Castelli homenageando sua matriarca no dia das mães. Pouco antes da chegada dos filhos, Marisa, sempre com esperanças de melhores relacionamentos familiares, telefonaria para sua cunhada Mary. As relações entre o irmão Ciro e esta última, estariam estremecidas desde o falecimento de Dona Noemi, pois houve um afastamento da parte de Mary. Ao atender ao telefone, Mary apesar de educada mostrou-se fria:
- Alô?
- Mary?
- Sim?
- É Marisa.
- Ah...Tudo bem?
- Tudo bem, Mary. Como está o Ciro?
- Bem, obrigada.
- E os meninos?
- Também.
- Eu liguei para lhe desejar um feliz dia das mães.
- Ah...Obrigada.
- Os meninos devem ir aí, não.
- É, vem almoçar. Eu não posso demorar muito, tenho que cuidar dos preparativos.
- Tudo bem, Mary. Só liguei porque lembrei de você. O Ciro está bem?
- Tudo bem.
- Então, um feliz dia das mães.
- Para todos vocês também. Tchau.
- Tchau.
Os filhos chegam a durante o almoço, Marisa que convidara também Conceição e Soraya, além dos Carajás, comenta:
- Falei com a Mary.
- É? – pergunta Genaro com desdém. – É claro que ela deu um jeito de despachar você logo.
- Não fale assim, filho.
- Mamãe, você é boa demais! Ela não merece tanta consideração, nunca teve por você. – completa Vitor.
- É mesmo. – concorda Paulo.
- Não se deve guardar rancor, filhos.
- Gente, nós estamos aqui reunidos para comemorar o dia das mães – intervèm Tonha. – eu estou feliz por vocês estarem aqui, estou com minha filha, meus netos. Vamos agradecer a Deus.
O almoço transcorre bem e todos ainda estão reunidos ao cair da tarde, quando toca o telefone.
- Alô?
- Tia Marisa. – era Carla, filha caçula de Ciro e Mary.
- Carla? Que surpresa!
- Pena que não seja boa.
- O que houve?
- Tia Marisa, minha mãe está no Miguel Couto, foi pra emergência.
- Como?! Falei com ela ainda hoje!
- Eu a deixei no apartamento onde tem a confecção e ela ligou passando mal, dizendo que ia morrer, estava sentindo dores muito fortes de cabeça, vomitando muito.
- Meu Deus...
- Estou aguardando notícias.
- Não deixe de ligar assim que souber.
- Tá.
Marisa relata o fato aos filhos e noras e todos esperam por notícias. Um pouco mais tarde, Carla liga e Marisa ao falar com esta exclama:
- Meu Deus!
Ao perceberam a apreensão de Marisa após desligar o telefone, todos ficam preocupados.
- Que foi? Morreu? – pergunta Paulo.
- Que é isto?! – exclama Heloísa.
- Não...Estão com suspeitas de que seja aneurisma.
- Mamãe, pior é que eu estava pressentindo isto – confessa Vitor.
- Tudo vai ficar bem. Deus está no controle. Ela vai ficar curada em nome de Jesus. – afirma Marisa.
- Vamos orar. – concorda Tonha.

Mary é transferida para um hospital particular, curiosamente de fundação de uma igreja evangélica. Todas as manhãs, um pastor vinha e evangelizava Mary, que o ouvia por educação. Ciro, na maioria das vezes não estava no quarto. Uma vez, porém, ao entrar e ver o pastor sair queixou-se com a enfermeira:
- Enfermeira, eu estou com minha mulher aqui, não por ser um hospital de religião evangélica. Estou porque sei que é um bom hospital. Não quero mais saber destes pastores vindo aqui. Já chega minha irmã com esta mania de igreja!
- Sim senhor. – a enfermeira sai e diz baixinho: “Tá amarrado em nome de Jesus”. Mas, glória a Deus! Pelo menos ele tem uma irmã evangélica e não pode impedir nem a nós nem a ela de orar.
Poucos dias depois, Marisa, que incansavelmente ia visitar Mary, traz a notícia a Paulo e Genaro:
- E então, mamãe, como está a tia Mary? – indaga Paulo.
- Melhorou? – pergunta Genaro.
- Ela vai ter que operar. – responde Marisa um pouco triste.
- Então é grave? – deduz Paulo.
- O Senhor vai usar os médicos, pois ele levou sobre si todas as nossas enfermidades. Ele vai usar os médicos, principalmente porque muitos deles são povo d’Ele.
Paulo e Genaro não dão muita importância ao que disse a mãe. Ficam com um jeito um pouco desconfiados e descrentes, mas não discutem.
A recuperação de Mary após a operação seria excelente. A área do aneurisma cerebral foi de fácil operação, do lado esquerdo da cabeça. Durante 18 dias, Mary não se lembrou de nada do que aconteceu, mas tão logo pôde, Marisa conversou mais longamente com a cunhada.
- Você parece muito bem, Mary.
- Devo estar parecendo um “guru”, mas vou ficar assim mesmo, não gosto de usar peruca ou lenço, esquenta muito.
- Você não tem vontade de sair?
- Eu agora estou descansando. O pior já passou. Esta doença me fez pensar muito, os valores da gente mudam.
- Eu sei como é. Você sabe que eu também tive este mal e fui curada.
- É...mas você não precisou operar.
- Sim, mas a sua operação foi um sucesso. Jesus curou você como a mim também, usando o Seu povo.
- Eu não sei bem o que você quer dizer, mas eu senti uma grande dedicação dos médicos. Realmente, a mão de Deus deve estar nisto.
- Com certeza está Mary.
- Por isto mesmo que eu quero aproveitar a ocasião para agradecer às suas visitas e o apoio. Não acho que eu tenha merecido isto.
- Nada do que nós temos é por merecimento, Mary, é por graça e misericórdia de Deus.
- Não posso negar que eu recebi esta graça. A dor que eu senti naquele dia foi uma coisa impressionante.
- É Mary, as dores que nós sentimos nos enganam. Você lembra da minha tia Carmen? Ela teve um enfarte fulminante, nem sentiu dor violenta e faleceu de repente.
- É, “para morrer, basta estar vivo!” – sintetizou Mary.
- Deus nos deu O Seu Filho, para que tivéssemos vida em abundância.
- Marisa, eu gostaria de não deixar de dizer, ou melhor, de pedir uma coisa.
- O que?
- Que você me perdoasse.
- Perdoar?! De que?
- Marisa, você sabe que eu nunca fui uma cunhada exemplar, que nem mereci a atenção que você me dispensou em minha doença.
- Mas Mary, eu estou acostumada a dar atenção às pessoas, principalmente em casos de doença. Eu não sou tão atenciosa assim.
- Você sabe que há muito tempo eu venho sendo distante, sem querer aproximação e sei que colaborei para que seu irmão não convivesse tanto com você. Com isto, eu privei meus filhos do contato com os seus. Tudo desde o falecimento de sua mãe.
- Isto já passou. Eu também me afastei. Por que lembrar disto agora?
- Marisa, quando a gente fica perto da morte, dá mais valor à vida e às coisas que sem saber perdeu. Eu sempre fui distante, até antipática e me privei de um bom relacionamento com você. O Vitório devia me odiar.
- Não, Mary.
- Digamos que ele me tolerava, tanto a mim quanto ao Ciro.
- Mary, o Vitório também não tinha um gênio fácil.
- Ele teve suas razões. O Ciro também não é a mais accessível das pessoas.
- Mary, de que adianta remexer em passado? O passado passou. As coisas hoje estão diferentes, você já passou por tantas coisas, eu também e estamos aqui. Ninguém guarda mágoas de ninguém.
- Marisa, eu sei que seus filhos não simpatizam comigo. Se não tivesse sido o Ciro, eu sei que por mim, nós não teríamos mais contato.

- Mas mesmo quando o Vitório era vivo nós tínhamos uma convivência amistosa. – relembrou Marisa. - O Ciro teve até muito boa vontade com o Sérgio quando o levou para passar um fim de semana em Petrópolis. O Sérgio é que sempre foi um menino fechado.
- É... Mas daqui pra frente as coisas vão melhorar.
- Se você se sente melhor em ouvir de mim que eu a perdôo, saiba que eu a perdôo. E também peço perdão, pois sei que também fui distante. Agora, eu também peço desculpas, porque tenho que ir. Está tudo bem. Não vamos pensar mais no passado. Como você disse: as coisas vão melhorar, aliás, já estão melhores.
Mary sentia-se realmente culpada pelo seu afastamento. A enfermidade que sofrera a fizera repensar muitas atitudes erradas do passado, não só em relação à Marisa, mas a outras pessoas. O Espírito Santo de Deus a tocara fortemente naquela situação inesperada em que correra risco de vida. Ela e Ciro já haviam se decidido por vender seu apartamento e morar em Petrópolis e em concordância com este e com os filhos, toma uma atitude: a casa de Petrópolis que ficara para eles seria passada para Marisa, pois com o dinheiro do apartamento poderiam comprar outra boa casa por lá e sobraria muito dinheiro. Marisa ficou surprêsa, porém feliz ao receber a notícia:
- Tonha! Eu nem acredito!
- É benção minha querida! A justiça de Deus não falha, Ele é fiel!
Poucos dias depois, num fim de semana, Marisa iria levada por Vitor e Helena ver a casa. Embora Vitor estivesse bebendo menos, conseguia quase sempre driblar Helena, bebendo fora de casa, depois do expediente, nos momentos em que ela não estivesse presente. Naquele dia, já bebera sem dar a perceber. Porém, uma situação inesperada iria sinalizar que o havia feito, quando ao estar dirigindo, demonstra uma falta de reflexo e Helena grita:
- Vitor! Um caminhão vindo da outra pista, cuidado! – Vitor desvia a tempo e o caminhão embora um pouco veloz, é freado pelo motorista, mesmo assim batendo de leve no carro amassando-o um pouco. Apesar do susto, Marisa imediatamente exclamava:
- Glória a Deus! Senhor, obrigada pelo livramento! – o motorista sai do caminhão e pergunta mansamente a Vitor:
- Está tudo bem amigo?
- Sim...
- Eu estava um pouco veloz, me perdoe. Eu gostaria de convidá-los para tomar um café.
- Não é preciso. – recusa Vitor educadamente.
- Aceita Vitor. – Helena insiste, pois vê nisto uma medida de segurança, pois se Vitor tomasse um café, passaria a bebedeira. Após tomarem café e conversarem descontraidamente, o caminhoneiro despede-se:
- Eu amassei o seu carro amigo. Gostaria de pagar o conserto.
- Não é preciso.
- Eu faço questão. Tome o meu cartão. – Vitor aceita o cartão que no canto tem os dizeres em negrito: JESUS TE AMA. Marisa que já tinha visto os mesmos dizeres escritos na frente e na traseira do caminhão despede-se do homem dizendo:
- A paz do Senhor, irmão.
Ao chegarem à casa, todos vibram, as crianças brincam, Marisa e Helena conversam felizes. Só Vitor fica apático e calado. No caminho de volta, Vitor continua quieto. Deixam Marisa em casa e ao chegarem, Vitor prepara-se para sair.
- Pra onde você vai? – pergunta Helena.
- Sair!
- Mas pra onde?
- Por aí!
- Vitor! – de nada adianta chamá-lo, pois sai porta afora sem lhe dar nenhuma importância. Muito triste Helena liga para Marisa e se lamenta.
- Marisa, Vitor saiu outra vez para beber. Ele vai encontrar aqueles amigos que só são amigos na hora da bebida! Eu não agüento mais!
- Não fique assim, querida, eu vou orar.
- Orar! Marisa, isto não adianta nada! Está tudo voltando!
- Helena, eu serei muito sincera; eu também cheguei a desanimar, perguntei pra Deus o porquê. Eu também tive momentos de fraqueza. Mas quando eu lembro que Deus me aceita do jeito que eu sou, volto a me sentir em paz.
- Então, por que este Deus não faz o Vitor parar de beber?
- Querida, eu acredito que Ele vá fazer. O que acontece é que Ele faz do jeito que quer, na hora que quer, porque Ele sabe de tudo. Se ficarmos ansiosas acabaremos atrapalhando o plano d’Ele. Pare um pouco pra pensar no livramento que tivemos hoje, na benção que recebi ganhando aquela casa de volta. Nós fomos muito abençoados. O motorista do caminhão é cristão e demonstrou ser um bom homem.
- Às vezes eu acho que Deus tem coisas mais importantes para se preocupar.
- Minha querida, “Os olhos de Deus estão em todo o lugar”.
Vitor, que mais uma vez saíra para beber com os “amigos”, - entre eles Raul – mostra-se num certo ponto da reunião no bar, já a altas horas da noite, calado e com a expressão fechada. Raul que cantava e bebia cada vez mais, comenta:
- Ô Vitor, você tá de “baixo astral”, hein?

- E vou continuar assim em casa! Tchau! – Vitor sai porta afora, quase não se agüentando em pé, para e senta num pequeno degrau da entrada de uma loja fechada. Um pouco depois, Raul e os outros o avistam de longe e um deles sugere:
- Vamos chamá-lo!
- “Deixa ele” lá, ele não pagou a conta! – retruca Raul com raiva. Vitor sentia-se arrasado. Não querendo aceitar o vício e por outro lado não se satisfazendo mais entre os amigos, sente-se só. Completamente só. Depois de reunir forças para conseguir levantar-se da soleira da porta de uma loja, vai para casa. Ao entrar, encontra seu pijama e roupa de cama no sofá.
De manhã, Helena deixa as crianças na casa de Marisa e tem uma conversa com Vitor:
- Vitor, eu não me surpreendi com o que você fez, pois não é a primeira vez. Felizmente não houve maiores conseqüências. Eu não digo que não fiquei preocupada, mas resolvi me desligar um pouco, porque se eu esperar que você resolva entender que não deve beber, não faço mais nada na vida. Falei com sua mãe, ela me tranqüilizou, disse que ia orar por você e acho que deu certo. Quero que saiba que se eu deixei suas coisas na sala, é porque tenho o direito de não querer me deitar com alguém cheirando a “pinga”. – decidida a se poupar, Helena procura ajuda, pois achava que uma separação seria o último recurso, já que causaria sofrimentos a muitas pessoas. Vai até o ALANON, instituição de auxílio a parentes e amigos de alcoólatras, apreciando a boa recepção:
- Boa tarde, companheira, gostaria de se apresentar, dizer o que a traz aqui?
- Meu marido tem problemas com a bebida. Nós nos conhecemos desde crianças, ele passou um período fora do país quando adolescente. Nos reencontramos e como já nos gostávamos casamos muito cedo. Não sei exatamente com começou a ter o vício, mas desde o nosso casamento tive a sensação de que ele era um pouco compulsivo, se bem que não dava muita importância. Os anos foram passando muitas coisas acontecendo. Por causa da bebida, ele foi se prejudicando e até hoje, apesar de ter emprego, ele não ganha muito como professor e pedagogo, fez também o curso de letras, mas para sobrevivermos e criar nossos três filhos temos ajuda dos meus pais e da mãe dele e até eu tive que passar a trabalhar meio período fora, para ajudar no orçamento. Já disseram que o vício deve ser por revolta em relação ao pai dele que era muito autoritário. Por imposição dele, ele foi morar na Itália dos 16 aos 21 anos. Ele havia se metido em política e ficou visado por isto, o pai teve medo, mas no íntimo tudo o que ele queria era a segurança do filho. Ele deve sentir muita culpa, porque não houve como questionar ao pai tanta rigidez, pois ele morreu pouco antes da volta dele. Acho que ele tem uma revolta interna, um rancor em relação a muitas pessoas que se desfizeram dele, tem parentes que o acham um chato. Eu sei que o bêbado é desagradável, é inconveniente, mas é muito mais cômodo criticar, falar mal do que ajudar. Eu não diria que o meu amor acabou, mas tenho me sentido tão impotente diante do vício dele, que não sei o que fazer. Já cheguei a passar alguns dias longe dele com meus filhos nas minhas férias, para que eles fossem poupados e eu pudesse colocar minha cabeça no lugar. Eu preciso de ajuda, por isto estou aqui.
Durante a reunião, Helena sente-se mais apoiada ouvindo depoimentos de outras esposas parentes e amigos de alcoólatras.
Decide ir visitar os pais, pois continuava a fugir de Vitor, mantendo as crianças mais tempo na casa de Marisa, que cada vez mais era uma mãe que se enchia de esperanças nas orações pelo filho e uma avó incansável, prazerosa em ver o bem estar dos netos, sempre os ajudando e cedendo o imenso quintal de sua casa para brincarem. Helena não encontra os pais em casa, mas Elisa lá está.
- Oi Elisa.
- Oi.
- Papai e mamãe saíram?
- Sim, mas não devem demorar.
- E a Lili?
- Esta não sai da casa dos pais do noivo.Você tem aqui sua irmãzinha negra. Se quiser conversar comigo...
- Elisa...eu fui ao ALANON.
- Quê?
- É uma instituição filantrópica, de auxílio aos parentes e amigos de alcoólatras.
- Ah...Sei, assim como os ALCOÓLATRAS ANÔNIMOS. O que você achou?
- Olha... O problema não é exatamente meu, é dele.
- Não, Lelê, vocês são uma só carne, tudo o que diz respeito a um, diz ao outro.
- Ah, Elisa... Eu me sinto tão desencantada, tão distante do Vitor e ele tão distante de mim. Se eu argumento, ele é agressivo, não aceita que tem o vício. Ele pode até diminuir, mas nunca para totalmente. Eu fui lá para desabafar, mas sinto que não é o bastante.
- Lelê, sem Jesus, nada é o bastante.
- É fácil pra você falar.
- Fácil?! Você acha que eu não tenho o mínimo de compaixão de ver você sofrendo por isto? Acha que sua sogra, que está firme com Jesus não sofre por ver o filho assim, ficando pra trás enquanto os outros crescem, estão até construindo três mansões pra eles? A diferença é que com Jesus, nos suportamos o sofrimento. Ele não prometeu vida encantada pra ninguém; prometeu estar sempre com a gente através do Espírito Santo, mas avisou: “No mundo passareis por aflições, mas tende bom ânimo, Eu venci o mundo”.

- Tá. Acabou a pregação?
- Não, Lelê, o que eu digo é para o seu despertar.
- Olha, Elisa, eu respeito vocês, mas isto não tem nada a ver comigo.
- Lelê, eu vi uma mudança na minha vida. Você mesma sabe de tudo o que eu passei; seu pai foi um pai pra mim, sem ele teria sido muito mais difícil, mas eu sei quem o usou pra resgatar a minha vida: Jesus, porque o General me conheceu com 14 anos, mas o Senhor me conheceu do ventre de minha mãe, até antes disto, porque naquela cruz, Ele já sabia que eu seria preciosa pra Ele, assim como você, como o Vitor, como todo o ser humano, porque o sacrifício d’Ele foi pela humanidade inteira. Infelizmente, muitos não se importam com isto e como Ele deu o direito de todos escolherem seu destino, ainda existem e lamentavelmente existirão muitos que não O aceitarão. Eu sei que você e o Vitor devem me achar uma chata, mas eu sei o que este Deus maravilhoso está fazendo na minha vida. Estou até com um pretendente, que sinto que Deus enviou pra mim.
- Parabéns... – Helena a felicita com uma certa descrença.
- Eu sei que eu serei feliz na vida afetiva. Já sou na profissional, fiz meus cursos, só não largo de vez esta casa porque me sinto em família, mas eles deixam eu fazer meus biscates. O que eu desejo pra mim, desejo pra vocês.
- Obrigada...
- Não fique com este ar descrente. Você ainda vai entender o que eu disse e muito mais, porque eu não disse nem a metade. O que Deus faz na vida da gente é uma coisa tão difícil de dizer que é preciso sentir e você vai sentir. – pouco depois, o casal Carajás chega e o General ouvindo as últimas palavras de Elisa, faz uma pilhéria:
- “Superpregadora” entra em ação!
- Papai! – exclama feliz Helena.
- Oi, querida. – o General abraça a filha. – Chegou bem na hora, trouxemos os pãezinhos que você gosta. Vamos tomar o nosso cafezinho e bater aquele papo!
Helena fica algumas horas mais com os pais e como permanece pouco falante, o pai percebe sua tristeza.
- Lelê, eu não vou perguntar nada. Só quero dizer uma coisa: seu pai está aqui para o que precisar.
- Obrigada, papai, mas está tudo bem.
- Tá...mas eu estou “pro que der e vier”.
Pouco depois, chegando em casa, Helena apresentou sinais de cansaço e de madrugada, levantou-se, preocupando Vitor.
- Que foi, Lelê?
- Nada não, amor.
- Como nada? Você está tão pálida, você não está bem.
- Nada demais, já vai passar. Eu não me senti bem e vomitei. – Vitor toca Helena na testa, no pescoço.
- Você está febril. Vou avisar na creche que você não pode ir trabalhar.
- Não é nada demais, Vitor.
Helena insistia, mas os sintomas iam se intensificando e sendo chamado o médico, foi constatado sarampo.
Como incansável avó dedicada e sogra excelente, considerando as noras como filhas, Marisa cuida de Helena e ajuda Vitor com os netos.
Tonha também oferece seus serviços e Heloísa e Paulo nos fins de semana tomam conta dos sobrinhos.
Helena precisa ser durante alguns dias hospitalizada e Vitor chega a esquecer da bebida e só lembrar que tem esposa. Demonstra ser um marido exemplar, extremoso nos seus cuidados com sua “Lelê”. Como em muitas situações “há males que vem pra bem”, uma enfermidade que aos olhos de muitos é uma maldição, acabou sendo benção na vida do casal.
Recuperada, Helena era só gratidão ao marido, que neste aspecto cumprira com os votos na hora do casamento: “fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”.
Pouco depois do restabelecimento de Helena, Hélida casava-se e usufruiria uma lua de mel em Nova Iorque, presente dos pais. Vitor quase teria uma recaída no casamento da cunhada, contido por Paulo que o vigiaria a festa inteira aos primeiros goles de champanhe.
Chegava mais um fim de ano, Genaro com casamento marcado com Soraya, literalmente dentro de todos os padrões estipulados pela mãe desta, provando ser um homem sincero e de bons sentimentos, realmente apaixonado.
Procurando não se deixar levar pela preocupação com Vitor, Helena deixa-o aproveitar as saídas com os amigos, desligando–se das conseqüências, o que surtiria um efeito positivo, pois assim Vitor perdia cada vez mais a “platéia” que ganhava com suas bebedeiras.
Heloísa tinha uma vida mais agitada com o trabalho, reunindo em fins de semana os parentes e amigos, até os empresários que iam se aproximando cada vez mais de Paulo, que se tornara sócio de Genaro, também fazendo s vezes de advogado na firma que ia crescendo.
As mansões já estariam bem adiantadas e Sérgio já intensificara as construções da sua, uma vez que voltara seu interesse para uma jovem que conhecera nos negócios que fechava com outra empresa de São Paulo. A jovem era filha de um próspero empresário proprietário de uma firma de máquinas de ar central, que prestava seus serviços para a firma dos também realizados irmãos empresários. Seu nome: Lúcia, uma bela ruiva de olhos azuis.
Marisa via os filhos mais novos seguindo seus rumos e o primogênito com uma vida num nível muito abaixo

dos irmãos. Entristecia-se, mas perseverava em suas orações.
Na cobertura de Botafogo, Heloísa e Helena conversam sobre suas vidas em mais uma véspera de fim de ano enquanto seus respectivos maridos não estão.
- Lolô, mais um ano está terminando, mais um ano que eu tenho que conviver com o vício do Vitor.
- Não seja pessimista você não pode afirmar que seja mais um ano igual a todos os outros.
- Pelo menos eu tenho ido ao ALANON. Não sei o que seria se não o tivesse feito.
- Já é um bom começo.
- Mas não é tudo. É difícil conviver com o vício de alguém que eu amo. É muito difícil, seguir uma linha de comportamento do tipo: “viva e deixe viver”. Nós temos muita coisa em comum, ele é um homem bom, tem excelentes qualidades, é sensível, carinhoso. Até já foi um pouco agressivo por causa da bebida, mas sempre se arrependeu. O que me faz mal é vê-lo se destruindo. Eu casei pensando em ser feliz, mas também em ver o Vitor feliz. Ele não é feliz.
- Mas o que é que este cara quer mais? Ele tem uma mãe que ajuda e sogros que ajudam, uma esposa dedicada, bons filhos. Passou por momentos difíceis com você, mas superou. O que ele, aliás, passou de mais difícil foi o sopro no coração do Allan.
- Fizeram uma trapaça com ele naquela firma. Também foi despedido no outro colégio.
- Sim, mas “bola pra frente, que aí vem gente!” Aliás, a Marisa vive dizendo que as palavras tem poder, né?
- É...Mas por que você está dizendo isto?
- Você lembra da Isaura?
- Lembro. Foi ela quem fez a sujeira com o Vitor.
- Eu encontrei aquela colega do Vitor.
- A Vilma?
- É. Ela foi ótima, porque se não fosse ela, ele teria sido despedido por justa causa.
- Lolô, fala logo.
- A Vilma me contou que a Isaura morreu de câncer.
- Que horror...
- A praga do Genaro pegou. “Há mais coisas entre o céu e a terra, do que imagina nossa vã filosofia”.
- Eu também acho, pois sinto que alguma coisa me prende ao Vitor.
- O amor, minha cara irmã. Por isto que eu acho que ele reclama de “barriga cheia”. O que você faz por ele e o que todos fazem, ninguém tem obrigação de fazer. Ele tem ótimas qualidades, é bom marido, bom pai, mas mesmo assim eu o acho imaturo. Eu confesso que mesmo com todo o bem que quero ao Vitor, por todas as qualidades dele pelo ser humano maravilhoso que ele é. Se eu estivesse casada com ele, não chegaria a tantos anos com um homem que deitasse ao meu lado com bafo de bebida.
- Bem... Nós somos diferentes, né mana?
- Esta é a grande sorte dele. Ainda bem que nunca foi violento com você estando bêbado, porque senão eu daria uns bons golpes de karatê nele!
- Mas nem tudo pode ser resolvido na violência.
- Nem tudo, mas algumas coisas sim. Eu me controlo, porque o seu excelentíssimo cunhado é muito atento ao trabalho, mas uma negação em casa. Se eu não tivesse a Elisa que sempre oferece ajuda, a Tonha além de empregada e babá fixas, não sei o que seria.
- Ah, Lolô, quem está reclamando de “barriga cheia” agora é você. Ele está fazendo uma casa maravilhosa pra vocês, isto conta.
- Lelê, o homem também tem que ser participante em casa. Seu cunhado é “sem jeito mandou lembranças”, tem hora que isto enche. A Marisa não se mete, mas eu sei que concorda comigo.
- É...Nossa sogra é uma exceção. Se não fosse por ela, sempre me apoiando, não sei...
- Ela foi muito boa na sua doença.
- Maravilhosa. O Vitor também foi um amor.
- Precisa ficar doente outras vezes, hein?
- Nem brinca, Lolô!
Pouco depois, chegavam Vitor e Paulo. Vitor já se mostrava sob o efeito eufórico da bebida.
- Oi pessoal! - saúda Vitor.
- Oi. - Respondem as irmãs.
- Lelê, ele já está “alegrinho”, pode contar que cedo do jeito que ainda é, ele vai descer e beber mais. – avisa Heloísa.
- Ai, Lolô, será que não dá pra enrolar pra ver se ele não sai? – indaga Helena apreensiva. Ao ouvir a irmã, Heloísa procura pensar rapidamente e vê a carteira de Vitor, jogada num canto na mesinha da cozinha, onde conversavam.
- Vou esconder esta carteira.
- Lolô, ele vai ficar uma “fera!” – adverte Helena.
- Que fique, pelo menos dá pra driblá-lo.
Durante alguns minutos, Vitor nem dá pela falta da carteira, distraído. De repente, quando resolve descer, pergunta:
- Gente, alguém viu minha carteira?

- Não. – responde cinicamente Heloísa.
- Pô, eu quero sair! – reclama Vitor irritado.
- Amor, não sai agora, vamos dançar. – Helena tenta ludibriar o marido de todas as formas, para que sua atenção se desvie da bebida, das más companhias, mas percebendo que há algo de estranho, começa a reagir irritado:
- Gente, eu tô a fim de sair e já perguntei onde está a minha carteira. Não é possível que ninguém tenha visto.
- Esfria, Vitor! – Paulo tenta apaziguar.
- Alguém escondeu minha carteira.
- Que é isto? – exclama Helena.
- Então, eu vou sem carteira. – quando Vitor está dirigindo-se para a porta, Heloísa arranca a chave, para impedi-lo de sair.
- Dá esta chave! – grita irritado.
- Não se aproxime ou eu lhe darei um golpe de karatê.
- Vitor, calma. – interfere Paulo.
- Que droga! – Vitor fica irado e começa a gritar, xingar. Heloísa saturada da atitude do cunhado resolve dizer:
- Achei a carteira.
- Onde estava?
- Não falo pra você deixar de ser otário.
- Ah, Lolô, desculpe. Eu estava nervoso.
- Aqui, cara! - Heloísa empurra Vitor e mostra a carteira debaixo da geladeira e o faz pensar ter sido uma travessura de Daniel. Vitor sai sem jeito e demora a voltar. As gêmeas e Paulo ficam preocupam-se. No fim da tarde, a campainha toca e Paulo atende enquanto as duas estão arrumando os filhos.
- Vitor! Você nos deixou preocupados. Você está bem?
- Não bebi, mano. Não diga que cheguei, tenho uma surprêsa pra Lelê.
Acabando de se arrumar, Helena ouve os acordes de uma música e ouvindo os primeiros versos, sente que há alguma estratégia de Vitor: “Desculpe o auê, eu não queria magoar você...”
- Vitor...
- Presente de fim de ano, Lelê.
- Olha, você não merece, mas eu o perdôo. Assim como você, eu sou uma romântica incurável.
- É por isto que agora eu vou dar uma “escapadinha” com você, para comemorarmos nosso Reveillon particular.
O que parecia um fim de ano desastroso acabaria em triunfal entrada de ano novo. O casal ainda se amava muito, apesar de muitos altos e baixos.

quinta-feira, 12 de março de 2009

CAPÍTULO X MAIS BEBEDEIRAS E... CONSEQÜÊNCIAS

CAPÍTULO X
MAIS BEBEDEIRAS E... CONSEQÜÊNCIAS
Enquanto seus irmãos construíam suas casas e prosperavam, Vitor continuava acomodado e frustrado, afogando as mágoas na bebida. Demonstrava grande irritação com as crianças no trabalho, o que também refletia em sua vida familiar.
A coordenação do estabelecimento propõe que passe a integrar o corpo administrativo. Vitor aceita prontamente, pois não se sente em condições de discutir ou questionar a mudança, já que seu medo no caso, era o de ser demitido. O salário já não lhe era tão satisfatório e fazendo parte da administração, a função seria menos desgastante e o rendimento mais compensador.
Nas outras escolas apesar de não ter grandes problemas, sabia que diante de uma crise econômica poderia ser o mais visado para demissão, pois não apresentava excelente trabalho, já que por muitas vezes tinha lapsos de memória ao dar aulas, o que os alunos percebiam.
As férias viriam e o fim de ano e com ele...Mais bebedeiras. Na véspera do Reveillon, Vitor sairia com os inseparáveis amigos Olavo e Otávio e Helena, estaria tensa em casa esperando até o início da noite o marido que não aparecia.
O General Carajás havia se reformado recentemente e gozava o início de sua aposentadoria com as filhas.
Hélida já tinha um namorado firme, Jorge, prestes a ficar noiva.
Ainda ocupando a cobertura de Botafogo, Heloísa e Paulo já com seu pequeno Daniel de 4 meses, ofereceriam a festa para os familiares.
Muito aflita Helena telefona para a irmã:
- Alô?
- Lolô?
- Fala Lelê, que voz mais desesperada!
- O Vitor está aí?
- Não, nem passou por aqui, antes que você pergunte.
- Meu Deus...
- Lelê, você parece que não conhece seu marido. Ele só pode estar na farra com os amigos!
- É...Bebendo, né?
- Conte-me uma novidade. “Ano novo, notícias novas!”
- Ah, Lolô, não brinca!
- Lelê, você quer que eu vá aí?
- E o Daniel?
- Não se preocupa, a Elisa está aqui, ela fica com ele.
- Não vai atrapalhar, mesmo?
- Se fosse atrapalhar eu não ia oferecer. O Paulo vai comigo. “Té já”.
Heloísa e Paulo procuram tranqüilizar Helena, que continua aflita. De repente, Paulo olha a TV e exclama:
- Olha lá o Vitor, gente! – Vitor aparecia num carro estilo trio elétrico, cantando, num tremendo porre. Helena o vê e exclama raivosa:
- Deixa ele chegar aqui! – pouco depois, Vitor chega e encontra Paulo que avisa:
- Vimos você na TV ainda agora.
- É? – Vitor fica surpreso, pois não esperava que tivesse sido filmado.
- Helena está uma fera, Vitor, cuidado, hein?
- Safado! Na farra e nós aqui preocupados! – Helena vem com um rolo de pastel na mão e atira-o em Vitor.
- Tá maluca?! – grita Vitor irado.
- Calma gente! – Heloísa e Paulo procuram conter os dois.
- Lelê, controle-se, olha as crianças assustadas. – adverte Heloísa.
- Gente, calma!! – grita Paulo.
- Pra você, principalmente – observa Heloísa.
- Vitor vem cá, toma este café! – Paulo dá o café para Vitor que toma contrariado. Depois que os ânimos já estão mais acalmados, Heloísa pondera com a irmã e Vitor:
- Gente, este é o primeiro reveillon que papai vai passar aposentado. Está feliz por estar mais perto de nós. Não vamos estragar tudo.
Apesar dos esforços de um casal para conciliar o outro, Vitor e Helena deixam transparecer a todos e principalmente ao casal Carajás que as coisas entre os dois não estão bem. Não conseguem conter Vitor, já que numa festa de fim de ano não poderia faltar champanhe e outras bebidas. Num dado momento, um amigo de Paulo aproxima-se de Helena.
- Como você é bonita.
- Obrigada. – responde friamente.
- É sincero você merece.
- É? E a sua mulher, merece um marido que fica chamando outra de bonita? – pergunta Helena, sinalizando que não aceita o seu assédio.
- Não há nada de mal em achar uma mulher bonita. - Não querendo confusão, Helena afasta-se do sujeito, que ao perceber que ela vai até a cozinha a segue.

- Eu não estou precisando de sombra, ouviu?
- Hum...Resistente...Assim é que eu gosto.
- Olha...Eu vou dar-lhe um calmante.
- Vai mesmo?
- É! Só que não é este que você pensa! É de água! – Helena joga a água que está bebendo no sujeito que assustado e irritado grita:
- Você é maluca!
- Ainda bem que você sabe! Só não queira saber mais, porque vai se arrepender!
- Qual é cara? Tá a fim de cantar minha mulher? – pergunta Vitor já bastante alterado pela bebida.
- Vamos pra dentro, Vitor – Paulo chega afastando o irmão.
- Me deixa em paz! – reclama Vitor, tentando resistir o irmão que segura-o firmemente.
- Você nem pensa nos seus filhos, cara?!
- Vitor, a Bertinha está cheia de vergonha. – intervem Heloísa - Você já pensou como se sente uma menina de 8 anos vendo o pai ser alvo de chacotas? A Celinha também, só tem 5 mas já entende as coisas e o Allan, não é porque é um neném de menos de 2 anos que não percebe o que se passa em volta dele. As crianças são mais sensíveis do que possamos imaginar.
- Eu...Eu não presto! – Vitor começa a chorar
- Ih...Começou a depressão. – queixa-se Paulo.
- Cunhadão, você precisa de um café forte e de um banho frio. – opina Heloísa.
Num canto da sala, Soraya comenta com a mãe:
- Mamãe, o Vitor é um cara tão legal, fico com tanta pena por ele ter esse vício.
- Eu também filha.
- Desculpem o meu irmão – Genaro desculpa–se, preocupado com o que as duas pensassem.
- Não precisa se preocupar. Todos nós temos problemas, eu compreendo. Né filha?
- Claro que sim, mamãe.
Helena sente-se cada vez mais irritada, impotente e quando vê que Vitor foi para dentro com Paulo, consola-se com a irmã:
- Lolô, não agüento mais isto, estou chegando ao meu limite!
- Lelê, minha irmã, eu realmente não a culpo, mas vamos evitar transparecer alguma coisa pro papai, ele não merece.
- Lolô, ele não comentou, mas deve ter percebido. O Vitor estava muito inconveniente.
- A mamãe conseguiu distraí-lo, conseguiu contemporizar. Você sabe que ela é sempre pela paz.
- Ainda bem que a Lili não passou o fim do ano aqui.
- Ela ia perder um Reveillon numa cobertura em Copacabana? – Heloísa ironiza, referindo-se ao elitismo da irmã mais nova.
- Olha, Lolô. Eu acho que vocês é que estão certas. Você estudou, fez seu curso de enfermagem, formou-se depois como assistente social à custa do trabalho, esperou mais para ter filho. Eu me dediquei ao marido, ao lar, aos filhos...E aí, como estou agora?
- Não exagera, Lelê.
- Como não exagera? Eu não estou realizada, nem poderia estar. Mulher de um alcoólatra! Que sina a minha!
- Ele te ama.
- Ai, não há mulher que agüente um marido acomodado, que ainda é ajudado pela mãe, que está ficando cada vez mais “pra trás” em relação aos irmãos e que pra esquecer, afoga as mágoas na bebida. Eu estou cheia. Vou pedir um favor a você: não o chame para ir para casa, eu vou sozinha.
- Vai ficar horrível, Lelê, papai e mamãe vão ficar aqui.
- Ai, Meu Deus... Eu não agüento mais. Tenho que me conter até diante dos meus próprios pais!
- Lelê, o papai aceitou o seu casamento porque queria ver você feliz, a mamãe argumentou com ele... É claro que ele percebe as coisas e tem vontade de falar, mas a mamãe o contèm. Ela até tem razão, é adepta do ditado: “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”.
- Ai, Lolô... Do jeito que as coisas estão, já não me importa que alguém “meta a colher”, ou até me encoraje dizendo: “Segue a tua vida, deixa este bêbado pra lá”.
- As coisas não são tão simples assim, Lelê. Você reclama, reclama, mais ainda o ama, estou errada?
- Pior que não. Eu ainda amo aquele “mala”, sim. Apesar de todos os vexames, de todas as vergonhas que já me fez passar, eu não consigo pensar em descartá-lo. Mas confesso que já pensei em tirar umas “férias” dele.
- “Férias conjugais?’”.
- É.
- Apesar de difícil, parece até mais diplomático. Só que o Vitor sem você, morre. Ele é um “carrapato!”
- É, mas eu acho que daria uma lição nele se fizesse isto. Ele está muito mal acostumado, encontrando sempre a mulher dedicada à casa, só agora é que eu comecei a exercer minha profissão.
- Pelo menos, isto você aprendeu e pode exercer. Você queixou-se de que sempre se dedicou aos filhos e eu até esqueci do detalhe que falou agora. Você já tem uma ocupação fora do lar.

- Mesmo assim, optei por isto não por passatempo e sim por necessidade. Se o Vitor não estivesse trabalhando em mais dois colégios, se papai, mamãe e Marisa não ajudassem, nem sei do que seria de mim e dos meus filhos. O Vitor usou até o 13º por causa de bebida. Comprou um Wisk importado.
- É uma coisa triste, eu sei, minha irmã. De minha parte, eu digo a você, que até vigiei pra que ele não bebesse. Mas você sabe que em Reveillon, não pode deixar de ter algumas bebidas, né?
- Eu gostaria que não existissem bebidas. Não sou nem contra, mas quem não sabe beber, não deveria beber nunca!
- Parece até a tia Edite falando.
- Ela é que é esperta, foi passar o fim do ano na Suíça.
- É pra quem pode, mana.
Ao amanhecer, como todo o início do ano as ruas estão desertas e muitas famílias dormem muitos jovens ainda “ligados” fazem o que chamam: “curtir a vida” e outros, como Vitor percebem ou quase percebem que a estão jogando fora.
Vitor acorda no apartamento da cunhada e do irmão, tonto e cheio de dor de cabeça. Paulo, que também levantara cedo para a ocasião, surpreende-se ao ver o irmão de pé.
- Já de pé, Vitor?
- Estou cheio de dor de cabeça.
- Quando é que você vai aprender?
- Ah, não começa você também! “Eu bebo sim, estou vivendo, tem gente que não bebe e está morrendo!” Ai, que dor! - Vitor leva mão à cabeça.
- É... Se isto é viver, meu caro irmão eu prefiro continuar “morto”.
Pouco depois, Helena acorda com os filhos, sem dirigir-se muito a Vitor, só o fazendo no momento de irem embora:
- Vamos aproveitar que meus pais ainda estão dormindo, pra que não o vejam de ressaca e eu não me aborrecer mais.
Os dois saem levando os filhos e Helena sentindo-se completamente desamparada, com vontade de sumir, tranca-se no quarto chorando. Vitor vê a porta trancada e bate.
- Lelê...
- Que é? – responde irritada.
- Posso entrar?
- Não! Me deixa em paz!
- Lelê... Vamos conversar.
- Não temos nada pra conversar, vai curar tua ressaca, se quiser sai e bebe até cair no chão, mas me dá o direito de pelo menos no meu quarto eu poder chorar só! É o que me resta!
- Eu...Eu vou me controlar, Lelê.
- Você viu “uma vaca voando, um gato relinchando, ou um passarinho miando?” Se viu, aí eu acredito que você vá se controlar!
Arrasado, mas completamente sem argumentos, Vitor vê que não tem outro remédio se não tentar diminuir a bebida. Acha que não precisa parar, mas pensa: “Não vou beber mais em casa”. Procura suas próprias soluções para um problema que não tem capacidade para resolver.
Nos dias que se seguiriam, Vitor ainda estaria trabalhando, pois daria aulas no período de recuperação dos colégios nos quais trabalhava. No CAMEC, estaria de férias.
Vitor até conseguiria diminuir um pouco a bebida, passaria a beber mais em fins de semana e muitas vezes quando não agüentava, bebia até escondido de Helena. Mas o vício o dominava, pois não se conscientizava de que a melhor solução para sua vida seria livrar-se dele.
Ao terminar o período de recuperação num dos colégios que trabalhava, teve uma dura notícia: estava despedido, pois diminuiriam o quadro de professores. Vitor indagava-se: “Será isto mesmo ou foi alguém que quis me prejudicar?” Aquela situação pegaria Vitor de surpresa e ele não conseguiria conter-se.
Como naquele dia estivesse também de férias, Helena sairia com as crianças. Chegaria mais tarde, despreocupada, nem pensando no que encontraria. Ao abrir a porta, o choque: Vitor estirado no chão.
- Vitor! Vitor! – este não respondia, a não ser por resmungos – Você bebeu! – Helena começa a chorar, desesperada.
- Não enche! – responde falando mole, não conseguindo levantar-se. – Helena sente-se humilhada, traída, ferida e numa fração de segundos tem vários pensamentos, até de acabar com Vitor, mas sabe que tudo é um emaranhado de emoções contidas, que de repente metralham sua mente, desordenadas, sem sentido, abafadas. Depois do impacto, recuperando a sanidade, pensa: “Vou pegar a chave da casa de veraneio dos meus pais em Sepetiba, vou pra lá até minhas férias acabarem, dane-se o Vitor, ele não me respeita, nem aos filhos, precisa de uma lição”. Enquanto arruma os filhos, Allan, sendo menor, assusta-se, chorando muito.
- Tenha pena da sua mãe, meu filho! – exclama Helena, descontrolando-se. – Vitor ainda tonto, tenta contê-la, mas como não está em condições pelo efeito da bebida, é empurrado por ela, que grita raivosa:
- “Me larga”, Vitor! Eu tenho pra onde ir e ficar livre de você pelo menos por algum tempo! Não tente me deter, respeite ao menos seus filhos! Seu “pau d’água!”

Vitor não tinha forças nem físicas nem morais para reagir. Estava arrasado. A companheira de quase 10 anos
de vida em comum, o abandonava. E agora? A situação só piorava as coisas, pois este era mais um pretexto para beber. Com a pouca resistência que lhe sobrava, liga para Heloísa, que embora penalizada procura ser firme:
- Alô?
- Lolô...
- Pela voz enrolada, você já “entornou” mais.
- Também, só este consolo eu tenho, sua irmã me abandonou.
- Que “abandonou”, Vitor! Só tirou umas “férias conjugais!”
- Como é que você sabe?
- Ela ligou da rua. Estava com as crianças e ia pegar um ônibus com todos. Como eu não queria que papai soubesse, liguei pro Paulo e ele deixou todos em Sepetiba na casa de veraneio.
- Quando ela volta?
- Quando acabarem as férias, pelo menos perto disto. Aproveite pra por sua cabeça no lugar hein, cunhado!
- Tá, Lolô, tchau.
- Olha, se precisar de alguma coisa, pode telefonar. Juízo, cara!
Sozinho, sem ninguém ao seu lado para contê-lo, estava agora Vitor diante da armadilha do adversário. Era como se ouvisse mais forte uma voz dizer: “Você está livre, aproveite”.
Sabendo do sofrimento do filho, Marisa lamentava o ocorrido, mas entendia as razões de Helena, sendo testemunha do que a nora suportava com as bebedeiras cada vez mais constantes deste.
Vitor era teimoso; não dava o braço a torcer e na primeira oportunidade que tivesse, executaria uma espécie de “vingança” mesclada com autopunição, pois se sentindo incompreendido, bebia para chamar a atenção das pessoas em volta e por outro lado, achando que merecia ser rejeitado, bebia para se castigar. Qualquer situação seria pretexto para beber.
Naquela manhã, após falar com Heloísa ao telefone, Vitor vai até o botequim mais próximo no qual era conhecido, para tomar o primeiro “trago” do dia. Chega ao balcão já se sentindo como que precisando de “combustível” e fala ansiosamente ao dono do estabelecimento:
- Zé me dá um “trago”.
- Está com dinheiro?
- Claro.
- Ah, bom hoje não tem “pendura?”
- Você sabe que eu pago.
- Nem sempre é você, o último quem pagou foi o João.
- Ah, Zé... “Muita conversa e pouco papo!” Me dá logo o “trago!”
- O que vai ser hoje?
- A “transparente!” Tô seco por uma! – Zé dá a cachaça a Vitor, que toma de um só gole, quase sem respirar.
- Vai mais outra!
- Devagar, cara!
- Zé, não enche, eu tô pagando! Vai segurar outro!
- Tudo bem, Vitor. Toma outra. Eu só falei, porque apesar de dono do botequim e querer vender, eu sou um ser humano e vejo você como outro ser humano. Se você quiser, dou tantas quantas você puder pagar, só que saúde, não se vende, amigo.
- Esta agora... Até você...Eu vou é beber noutro botequim! – Vitor vira o segundo copo e após pagar, vai até outro botequim próximo. Em pouco tempo, já tomado pela bebida, começa a fazer um “monólogo”, queixando-se de sua vida:
- As mulheres sabem como castigar os homens. A minha sabe que eu não vivo sem ela e o que foi que ela fez? Me deixou sozinho. Foi curtir as férias longe de mim, quando eu mais precisava dela. Todas elas são iguais! Pior é que eu a amo mesmo assim...Lelê! Volta pra mim! – Vitor começa a chorar e a incomodar os outros que estão no bar, até que um homem o leva com jeito para o outro lado da rua. Indignado Vitor volta e por três vezes o homem o conduz até o outro lado. Como se tentasse voltar da quarta vez, o homem ajudado por outros o deixa à força pela última vez do outro lado e então o avisam:
- Se você voltar, chamamos a polícia! – dando-se por vencido, Vitor vai para casa e tonto por ter bebido muito além do que de costume, acaba dormindo no sofá da sala.
Desta vez, a ressaca duraria dois dias apesar de todos os irmãos o terem procurado, não aceitou nenhum conselho, nem ajuda. Sentia o mundo contra si e queria vingar-se. Tão logo se recuperava do último porre, estava pronto para encarar o próximo. Resolve sair e ir a um bar. Para surpresa sua, encontra um antigo conhecido, Amadeu.
- Vitor!
- Amadeu?
- Sou eu Vitor! Há quanto tempo!
- Bota tempo nisto!
- Lembra da confusão naquele dia? Faz 15 anos, mas eu me lembro como se fosse hoje. O Edson Luiz, coitado, veio tentar a vida no Rio, um jovem com tantos ideais, morrer daquele jeito...Mas também, eu bati muito naqueles “milicos!” Pensar que hoje sou um deles. Eu consegui proteger muita gente, ninguém

nunca soube.
- Eu também.
- Um capítulo triste e encoberto da História do nosso país.
- É...
- O seu sogro, o General Carajás, reformou-se, né?
- É, agora há pouco. Mas parece que esquece que não está mais no quartel. É cada vez mais autoritário.
O tempo passa e Amadeu vendo que Vitor está só e sem horário para voltar, convida-o a beber por sua conta, o que para o último é uma grande sorte, pois saira com pouco dinheiro.
- Vitor, vamos dar uma “esticada?”
- Bem, eu estou com pouco dinheiro, não dá pra muita coisa.
- Que é isto rapaz, estou convidando. Vamos à uma Boate, tudo por minha conta. – o convite foi aceito e Vitor vai com Amadeu, mas no íntimo, sente-se um pouco culpado, mesmo que mais liberado pela bebida. Apesar de boêmio, Vitor não era muito chegado a determinados ambientes. Sendo um homem já acostumado a ter todas as mulheres que quisesse e incentivador da traição, propõe um “programa” a Vitor:
- Vitor que acha de escolhermos as mulheres mais bonitas do show e levá-las pro meu apartamento?
- Você nem as conhece, será seguro?
- Não se preocupe. As daqui são de “fino trato”.
Vitor aceita. A solidão o fazia ter um desejo de vingança. Vitor comportava-se como que um adolescente afirmar-se para Amadeu. Na tarde do dia seguinte, após terem bebido no apartamento de Amadeu, este acorda tonto de sono, após ter dormido por várias horas. Vendo Vitor dormindo no sofá, o chama:
- Vitor! Vitor!
- Hã...? – Vitor acorda mais tonto ainda e cheio de dor de cabeça.
- Aquelas safadas me roubaram! Roubaram você também?
- Se elas roubaram, não levaram muita coisa, eu estava com pouco dinheiro.
- Cretinas! Elas me pagam!
- Amadeu... É engraçado... Eu acho que peguei logo no sono, pouco depois que chegamos aqui e bebemos. Você também?
- Já sei: “Boa noite Cinderela!” Como é que eu entrei nesta?! Mas elas vão ver, vou “enquadrar” as duas! Vou acabar com elas!
- A esta altura, já sumiram, Amadeu!
- Eu vou achar as duas nem que seja no inferno!
Em Sepetiba, Helena procurava esquecer os problemas. Sua prima Samara – sobrinha de Dona Marta, pensando em ajudá-la, foi visitá-la e lhe faria um convite:
- Lelê, o que você acha de ir à minha orientadora espiritual?
- Quê?
- É uma senhora que eu conheci quando estava com depressão e ela disse até que sonhou comigo ela tem muita experiência, você vai gostar.
- Tá. Podemos ir.
Chegando ao local, uma casa na rua próxima, Helena assiste uma sessão e participa de um relaxamento. Aparentemente, nada de anormal, mas sente-se um pouco apática após o relaxamento e acha o jeito da orientadora, Dona Santa estranho, com a voz em determinados momentos muito calma e em outros, agitada. Depois vê pessoas caírem num sono profundo, sem o menor controle. Helena finalmente está descendo e Dona Santa quando vai saindo, fala com Samara:
- Esta bolsa aí é de alguém? Está aí jogada. - Dona Santa despede-se jogando um beijo para Samara e batendo no peito à altura do coração. Helena só pensa: “Que senhora estranha!” – Quando Samara vai pegar a bolsa na intenção de procurar a dona, ouve uma voz em tom de queixa:
- Samara! Esta bolsa é minha! – a dona da bolsa desce furiosa e a pega. Na hora que Samara sai com Helena, a moça diz com ironia e concordância de outros:
- Vai com Deus! – Helena sente algo estranho, como que uma voz lhe dissesse que o que Dona Santa fizera, fosse com a intenção de desencadear uma briga e impressionada com a cegueira de Samara, achou melhor não dizer nada.
- Ai, que chato... – lamentava Samara. – Dona Santa sabia que eu tinha que passar por uma situação difícil, até me jogou um beijo quando saiu. – Helena só pensava no jeito estranho da senhora e perguntava-se: “Se ela sabia que ia haver uma briga, por que deixou que acontecesse?” Dois dias depois, Samara chamava novamente Helena para falar com Dona Santa, num atendimento espiritual. Helena, porém sentia que como um aviso para não ir e perguntava à Samara:
- Samara, você tem certeza de que ela vai me atender?
- Claro! Ela está lá para isto.
- Não sei...
- Bobagem, você vai gostar.
Porém, ao chegarem e Dona Santa percebendo a presença de Helena, fica como que incomodada, agitada. Vê uma luz muito forte em volta de Helena como que lhe ofuscando a vista. Chama Samara num canto e fala-lhe em particular, repreendendo-a:

- Você não deveria ter trazido esta moça sem me avisar!
- Mas ela está com problemas.
- Problemas todos nós temos. Eu não posso atendê-la!
Mesmo decepcionada Samara vai embora com Helena, que irritada, chama-lhe a atenção:
- Samara, eu tenho mais o que fazer do que vir falar com uma velha maluca!
- Que é isto, Lelê! Que Deus a perdoe!
- Que Deus perdoe você e aquela “louca de pedra!” Só o que ela fez com você naquela noite que eu fui lá, já prova o desequilíbrio dela!
- Mas ela não podia assumir o que tinha que acontecer comigo!
- Se ela sabia que ia acontecer, tinha mais é que não deixar acontecer!
- Mas...
- Samara! Chega! Estou aqui para descansar de problemas, não para me aborrecer! Boa tarde! E não me chame mais pra ir a um lugar como aquele! Aquela “dona” guia sua vida! “È ruim de alguém guiar a minha!”
Enquanto isto, Vitor, já recuperado de seu último porre, vai a uma reunião de reciclagem no outro colégio em que ainda trabalha, o CECO (CENTRO EDUCACIONAL CLÉCIO DE OLIVEIRA) de propriedade das filhas do mesmo, Eglantine e Francine. Após a reunião, as irmãs, muito amigas de Vitor, sentem-se na obrigação de conversar com ele, pois perceberam seu abatimento.
- Vitor, você não gostaria de ir à minha sala, querido? – convida Eglantine.
- É Vitor, nós estamos sentindo você triste e queremos ajudar. – reforça Francine.
- Tá... – os três sobem e Eglantine, docemente, pergunta:
- O que há colega?
- Nada, não...
- Ah, Vitor...Como nada? – pergunta Francine
- Os problemas de sempre.
- Vitor, amigo – continua Eglantine – eu sei que você deve estar chateado porque o outro colégio o demitiu, mas quero que saiba que estamos dispostas a ajudá-lo, você e os outros professores, são para nós como parte de nossa família, pois sem vocês e os alunos a escola não existe. Como uma família unida, nós temos que ter um bom diálogo, abertura para colocar os problemas. Pode ser que esteja acontecendo aqui algo que eu não saiba e que você não se sinta bem para falar. Algum problema com alunos? Colegas?
- Não, absolutamente.
- É só a preocupação por estar ganhando menos?
- De certa forma.
- Vitor, você está satisfeito como está? – pergunta Francine.
- Não.
- Porque? Fica só entre nós. Confie na gente, não vamos contar a ninguém, só queremos ajudar. – encoraja Eglantine.
- Eu não sei, está tudo tão errado comigo.
- Você tem alguma mágoa? – Francine incentiva-o a falar.
- Acho que sim.
- De quem Vitor?
- Acho que de meu pai.
- Mas seu pai já não morreu, Vitor? – espanta-se Eglantine.
- Sim, há quase doze anos.
- Mas isto pode fazer muito mal a você. Você pode até somatizar, pode ficar doente. – completa Francine.
- Olha, Vitor, os males da alma, podem ser maiores do que pensamos. Seu pai pode ter errado com você, mas devia querer o seu bem. – argumenta Eglantine. – Por que a mágoa em relação a ele?
- Acho que foi por causa da minha ida para a Itália, quando eu tinha 16 anos.
- Foi por causa de política, você comentou uma vez de passagem - relembrou Francine.
- É. Será que é por isto que você algumas vezes bebe demais? – indagou Eglantine repentinamente.
- Mas até você, Eglantine!
- Vitor, eu posso tê-lo chocado, mas está na hora de assumir que você às vezes abusa, já percebemos nas festas do colégio. Nos últimos tempos então, tem sido mais constante. Felizmente não houve maiores conseqüências. Você não bebeu no trabalho, mas deve se preservar diante dos seus alunos.
- E olhe, Vitor – alerta Francine – falamos como amigas, não como diretora e coordenadora como pessoas que gostam sinceramente de você e que querem o seu bem; se você tem mágoa do seu pai, é natural que esteja transferindo para outras pessoas, que até beba para se vingar do mundo. Eu posso exemplificar: o pai de meus filhos tem uma bronca tremenda de mim e desconta tudo na minha filha. Ela descobriu isto em terapia e já falou para ele. Se você estiver interessado, posso indicar um lugar que faz terapia por um preço accessível.
- Tá, eu vou pensar, obrigado.
Vitor sai sentindo-se um pouco incomodado pela conversa, pois apesar de ao mesmo tempo aliviado, não gostava de se abrir muito. Sabia que Francine e Eglantine eram sinceras em querer ajudá-lo, mas ainda era muito teimoso.
Chegando em casa, encontra Elisa.
- Oi Vitor.
- Como entrou?
- Esqueceu que eu tenho cópia da chave?
- O que você quer?
- Saber como você está.
- Estou bem, obrigado.
- Ah, não está não, Vitor.
- Como?! Você agora determina o que eu sinto?!
- Calma cara! Estou vendo isto em você, nos seus olhos, no seu jeito. Você não sabe disfarçar.
- Tá, eu não sei disfarçar. Você acha que eu estou feliz em passar este período longe da minha mulher? Dos meus filhos?
- Vitor, você precisa de Jesus.
- Lá vem mais uma “discípula da Dona Marisa!”
- Querido, eu sou discípula de Jesus Cristo, a sua mãe é uma mulher de Deus e Ele tem um plano na sua vida.
- Tá bem... – desdenha Vitor.
- É sério.
- Sei...
- Você precisa “se ligar”, cara! Você quer perder sua família? - Vitor emudece e Elisa continua – Eu tenho certeza que não. Mas, cuidado, para de querer afogar suas mágoas na bebida. Tudo isto é uma grande ilusão, é buscar uma falsa felicidade. Quando você tiver consciência do que está fazendo com sua vida, poderá ser tarde demais e você vai se arrepender “amargaramente”.
- É amargamente.
- Tá, amargamente, aceito a correção. Agora, vê se aceita a correção que Deus quer fazer na sua vida.
- Não tenho nada para ser corrigido.
- Todos nós temos. Eu mesma fui corrigida porque falei errado. Eu preciso aprender muitas coisas, mas você também. Eu posso até estar parecendo uma chata, mas só quero poder abençoar você. De uma coisa pode ter certeza: de uma maneira igual, sem distinção, Jesus te ama, como a todos nós e eu te amo no amor de Jesus.
- Tá, ô “pregadora”, agradeço, mas só peço que me deixe em paz!
- Como queira. Eu te abençôo em nome de Jesus!
- Amém. – responde Vitor ironicamente.
Durante sua estadia em Sepetiba, Helena preferiria não falar com Vitor, mas ligava regularmente para Marisa, que compreendendo a atitude da nora a ouvia e aconselhava a não brigar com o filho na volta, prometendo acalmá-lo para o momento.
Numa noite próxima à volta, Bertinha vê a mãe ouvindo rádio no escuro e chega-se à ela, perguntando;
- Você tem este disco, né mãe?
- Seu pai me deu. Você está sem sono?
- Estou.
- Chegue aqui pertinho de mim.
- Você...não vai se separar do papai, né?
- Não, filha, só estou dando em tempo.
- Férias conjugais?
- Onde você ouviu isto?
- Uma colega da escola disse que os pais dela tiraram umas.
- Vem cá, filhinha, senta perto da mamãe. – Bertinha senta-se aconchegadamente perto de Helena que lhe acaricia os louros cabelos ondulados.
- Filha tem coisas que os adultos às vezes têm que fazer, - principalmente os pais – pelo bem dos filhos. Você já vai fazer 9 anos e deve estar começando a entender melhor algumas coisas. Uma vida entre duas pessoas não é sempre tão fácil. Marido e mulher têm coisas que combinam e outras que não, tem coisas em um que às vezes incomodam ao outro.
- No papai, o que incomoda é a bebida, né?
- É, filha. Mas eu ainda acredito que ele venha a reconhecer que não deve beber, que não sabe se controlar.
- Você já falou isto muitas vezes com ele, eu lembro.
- É... Mas nem tudo o que a gente diz, as pessoas entendem logo e por isto, é melhor que elas venham a entender por elas mesmas. Muitas vezes com o adulto é mais difícil. Você se lembra quantas vezes eu já tive que dizer pra você não fazer bagunça no quarto?
- É. – Bertinha responde rindo.
- Muitas vezes já até quis me convencer que não estava tão bagunçado, né? – as duas riem juntas.
- Eu quero muito que o papai pare de beber.
- Estas coisas podem demorar, filha.
- Minha avó Marisa, diz que é só ter fé.

- Ela tem razão, mas nem sempre eu consigo.
- Eu queria pedir ao papai que ele parasse de beber.
- Não sei se isto daria certo, filha. Você teria que ter certeza de que ele reconheceria que precisa fazê-lo. Muitos adultos acham que as crianças não tem nada a ensinar.
- Eu não acho o papai assim.
- Por que?
- Ele sempre conta coisas dos alunos. Diz que aprende com eles. Ele disse que um aluno dele, o Mateus, falou pra ele assim: “Tio, hoje você abriu sua alegria!”
- Menino sensível. – admirou Helena.
- Eu fico triste, porque já ouvi falarem dele no colégio. Colegas meus viram meu pai bêbado na rua. Será que ele não vai entender que eu preciso que ele pare de beber?
- Isto ainda pode acontecer, vamos acreditar num milagre. Bem, filha, está ficando tarde, vamos nos deitar.
Com a proximidade da volta de Helena, Vitor procura controlar-se e beber menos. Passa a dar voltas na Lagoa Rodrigo de Freitas, tentando ver um pouco da natureza, pessoas. Vitor fica meditando e divagando, lembrando todos os momentos felizes ao lado de Helena, comparando aos atuais. No íntimo, um pouco de consciência sobre o vício lhe vinha à mente, mas, como querendo justificar-se para si mesmo, pensava: “Ah, uns goles de vez em quando não fazem mal a ninguém!”
Finalmente, após quase um mês afastado de Helena, chegaria o dia do reencontro. Após sua já costumeira caminhada matinal, Vitor chegava em casa, tomava um banho e aguardava o momento. Já um pouco além do meio dia, Vitor mexia em seus guardados e encontrava um de seus discos prediletos, que dera para Helena, num aniversário de casamento, no qual havia uma música muito especial para os dois. Ele e a esposa consideravam-se um casal atípico, pois tinham na história de seu amor muitas canções. Vitor pega o disco, coloca no “som” e começa a ouvir a introdução da música e no exato momento em que a voz do cantor começa a cantar os versos: “Eu não pensava em te amar deste jeito...” - entra Helena com os filhos. Vitor sente sua presença e levanta-se do chão onde estava perto do som.
- Lelê seja bem vinda.
- Espero que esteja tudo bem. – diz Helena ainda um pouco hesitante em chegar-se mais a Vitor.
- Pai! – Bertinha corre para abraçá-lo e em seguida Celinha e Allan também o abraçam, junto com a irmã.
Tudo parecia um final feliz e que as coisas iriam melhorar, pois aquelas férias conjugais pareciam ter sido a solução para o casal.